SATYRIZA O POETA O ENCONTRO, QUE TEVE JOANA GAFEYRA, DE QUEM FALLAREMOS LARGAMENTE NAS DAMAS DA VILLA DE S. FRANCISCO COM CERTO FRADE EM UM BANANAL.

By Gregório de Matos Guerra

Um Frade no Bananal,

inda que diga Joana,

que foi despencar banana,

jurarei, que não foi tal:

não foi o Frade ao quintal

para roubar a seu dono,

mas dizem por seu abono,

que foi ao quintal prover-se,

deve crer-se, e entender-se,

que foi prover-se de cono.

Como havia de ir o Frade

prover-se ao bananal,

se eu sei, que foi ao quintal

com outra necessidade:

que Sua Paternidade

lá fosse, a mim me constou,

mas como a Joana achou

estirada, e tartamuda,

deitou-lhe o Frade uma ajuda,

com que Joana cagou.

Que cagasse não me espanto,

se a calda o quintal empoça

com seringa um tanto grossa,

e comprida um tanto quanto:

sentiu-se Joana tanto

que o Frade assim a sacuda,

que chamando, quem lhe acuda,

dizia, que na verdade

antes queria do Frade

o xarope, do que ajuda.

O xarope é cordial,

e ajuda é culatrina

xarope é cousa divina,

a ajuda é cousa infernal,

nunca eu fora ao bananal!

mas quem havia de crer,

que o Frade lá fosse ter,

para que ali me sacuda,

e não deixasse uma ajuda,

com que eu pudesse viver.

Ele me fez de maneira,

quando o canudo metia,

que eu cuidei, que me dormia

cum tronco de bananeira:

enquanto na derradeira

o licor senti correr

da calda, me pus a crer,

e cri, que em toda a verdade

o Frade como bom Frade

vinha ajudar-me a morrer.

Mas logo senti a míngua,

quando a dizer me esforçava

Jesus, ele me tapava

a boca com toda a língua:

nunca a piedade míngua,

se não num grosso saial,

e foi este Frade tal,

que me impediu, que falasse,

porque Deus mais não chamasse,

que o demo do bananal.

Que fosse ajuda não sei,

e só sei, que apuros topes

me deu o rei dos xaropes,

e não xarope de rei:

o Frade é Frade sem lei,

e de consciência torta,

pois na minha mesma horta,

quando a sua seringada

me houvera deixar curada,

então me deixou mais morta.

Morrera em todo o rigor

desta feita excomungada,

se a força da vardascada

não me absolve meu Senhor:

o Frade como traidor

com outro a fuga confere

e porque mais me exaspere,

cruzou o charco salgado,

porque sendo o excomungado

levasse eu o miserere.