SATYRIZA OUTRO CASO DE HUMA NEGRA QUE FOY ACHADA COM OUTRO FRADE, E FOY BEM MOID...

By Gregório de Matos Guerra

Nunca cuidei do burel,

nem menos do seu cordão,

que fosse tão cascarrão,

tão duro, nem tão cruel:

mas vós como sois novel,

e ignorais o bom, e o mau,

e o que tirastes do escote

foi ver, que era o seu picote

tão duro como um bom pau

Vós fostes bem esfregada

do burel esfregador,

mas depois o pão do amor

vos deixou mais bem pisada:

no bananal enramada

vos atastes ao cordão,

que vos fez a esfregação;

depois quem vos vigiou,

nas costas vos assentou

as costuras cum bordão.

Fingistes-vos mui doente,

e atastes no pé um trapo,

sendo a doença o marzapo

do Franciscano insolente:

enganastes toda a gente

fingidamente traidora,

mas eu soube na mesma hora,

que nos tínheis enganado,

e por haver-vos deitado,

fingis deitar-vos agora.

Eu sinto em todo o rigor

os vossos sucessos maus,

pois levastes com dois paus

um do Frade, outro do amor:

qual destes paus foi pior

vós nos haveis de dizer,

que eu não deixo de saber,

que sendo negras, ou brancas

é sempre um só pau de trancas

pouco para uma mulher.

Não vades ao bananal,

que e cousa escorregadia,

e eis de levar cada dia

lá no có, cá no costal:

sed libera nos a mal

dizei no vosso rosário,

e se o Frade é frandulário,

vá folgar a seu convento,

que vós no vosso aposento

tendes certo o centenário.

Muito mal considerastes,

no que o sucesso parou,

que o Frade vos não pagou,

e vós em casa o pagastes:

tal miserere levastes,

que vos digo na verdade,

fora melhor dá-lo ao Frade

porque é maior indecência

dá-lo a vossa negligência,

que à sua Paternidade.