SAUDADES

By Laurindo José da Silva Rabelo

Da saudade, bem amado,

Nesta ausência tão distante,

Cada vez mais encravado

O espinho penetrante,

O coração sossegado

Me não deixa um só instante.

Como do caos primitivo

Surgiu bela criação,

Do caos da minha tristeza

Da pátria surge a visão!

Tenho saudades dos montes,

Dos ares, dos horizontes

Que à pátria servem de véu;

Saudades dos meus palmares,

Saudades daqueles ares,

Saudades daquele céu!

É puro, mas com ser puro

Este céu me não convém;

Que tendo tantas estrelas

A minha estrela não tem!

Muitas vezes a procuro,

Mas debalde!... um ponto escuro

No seu lugar se fitou;

Conheço e vejo a verdade:

Foi a nuvem da saudade,

Que a minha estrela apagou.

Sim, meu bem, brilhou a estrela

Sem rival nos brilhos seus,

Enquanto a luz recebia

Do lume dos olhos teus;

Quando teus olhos ardentes,

Rutilando de contentes

Iam-se nela fitar.

Hoje que estão desmaiados

Por prantos continuados,

Com seus sóis quase apagados,

Como há de a estrela brilhar?

Cada dia que se passa

Neste desgosto cruel,

Tem novo quadro a desgraça,

Tem a ausência novo fel,

Mais compunge o peito ansiado

Esse espinho envenenado,

Que a saudade me cravou;

E a dor me tem convencido

Que do espinho introduzido

Novo espinho se gerou.

Eu o sinto, quando estreito

Nos meus transportes de dor,

Sobre os lábios, sobre o peito,

O meu talismã de amor;

O meu fiel companheiro

E talvez o derradeiro

Presente de amor, de ti,

Na hora da despedida

Em que tudo (exceto a vida

Para chorar-te) perdi!

Se d’alma a essência celeste

Pudesse ser transmitida,

O retrato que me deste

Não fora um corpo sem vida

Que, ao vê-lo, minh’alma ardente,

No transporte mais veemente,

Sente ao semblante subir,

E nos olhos condensada,

Em lágrimas transformada,

Sobre o retrato cair.

Aos tormentos que já sobram

Novos reúne a saudade;

Os seus negrumes redobram

As sombras da soledade.

Na mente a imagem se agita

Dessa ventura infinita

Que junto a ti desfrutei,

Em quadros tão sedutores,

Quais nunca dos meus amores,

Nem nos sonhos divisei.

O amor com que me abraças,

Então não posso dizer!

Da saudade sinto as asas

No coração me bater;

E contemplando os espaços

Que te roubam aos meus braços,

E que não posso transpor,

Perco a luz, e desmaiada

Cai-me a fronte atordoada

Pelos combates de amor!

Assim passo em tua ausência.

Eis qual é o meu viver!

Melhor que tal existência

Mil vezes fora morrer,

Se não tivesse a esperança

Que venturosa bonança

À tormenta porá fim;

Se não tivesse a certeza

Que me adoras com firmeza,

Que não te esqueces de mim.