SAUDOSO DE PERNAMERIM, E SENDO ACASO TOPADO NAQUELLA VILLA HUM MOLEQUE CHAMADO O...

By Gregório de Matos Guerra

Veio aqui o Moçorongo

tão oculto, e escondido,

que não sei se o tenha a ele,

se a vós por meu inimigo.

Chegou terça-feira à tarde,

meteu-se em casa de Chico,

passou a tarde, e a noite,

e o pior é, que dormindo.

Porque havia de dormir

o Moçorongo maldito,

sabendo, que eu estava

desvelado, e afligido.

Amanheceu quarta-feira,

chegou o nosso Arcebispo,

gastou-se toda a manhã

com visitas, e visitos:

Deu meio-dia, e fui eu

para casa dos amigos

esfaimado como um cão,

e como um lobo faminto:

Quando o cam do Moçorongo

saiu do seu esconderijo,

e sem cuidar no encontro

deu de focinho comigo.

Alegrei-me, e enfadei-me,

que há casos, em que é preciso,

que se mostre ao mesmo tempo

alegre um peito, e mofino.

Amofinou-me a traição,

com que ele esteve escondido,

e alegrei-me de encontrar

com gente desse distrito.

Perguntei logo por vós,

por Inácio, e Antonico,

por Luzia, e por Catona,

e mais gente desse Sítio.

Todos estão de saúde,

me disse o Crioulo esquivo

um tanto triste da cara,

pouco alegre do focinho.

Mas eu fiz-lhe muita festa,

assim por ser seu amigo,

como por ser cousa vossa,

e nesse pasto nascido.

Perguntei, se me escreveras:

zombou disso, e deu-me um trinco;

zombou com cara risonha,

trincou com dedo tangido.

Disto formo a minha queixa,

disto fico mui sentido,

pois sei, que tendes papel,

tinteiro, pena, e juízo.

Mas andar lá nos veremos,

e vereis, que de sentido

vos hei de estrugir a vozes,

e me hei de espojar a gritos.