SAUDOSO O POETA DAQUELLA AUSENCIA, QUE FEZ FLORALVA DA FESTIVIDADE, VAY MEDINDO ...

By Gregório de Matos Guerra

Oh dos cerúleos abismos:

ouvi-me Deuses salobres,

que as deidades nunca faltam

ao triste clamor dos homens.

Ouve, divino Nereu,

escuta cândida Dores,

quanto contém de um amante

de mérito os seus clamores.

Que é isto, ingratas Deidades?

como os Deuses não respondem?

como em vós piedades faltam,

que vos distinguem dos homens?

Mas já em cândidas Coréias

o pélago as Ninfas rompem,

e os largos campos colmados

de tanto embrechado monte.

Já me atendeis piedosas

mil vezes, mil vezes, nobres

Filhos do mar, quanto devem

já a vossos pés minhas vozes.

Chegai, e a neve das plantas

a neve dos mares corte,

velozes andai, que tardam,

a quem espera, os velozes.

Sabei, Nereidas, e Ninfas;

oh quem para imensas dores.

para imenso mal tivera

imensas ativas vozes!

Sabei já, sagradas Ninfas,

que em vossos mares se esconde

uma Deidade tão bela,

que aos mesmos Deuses se encobre.

Uma beleza tão fera,

que aspira, a que se equivoquem

a formosura, a beleza,

as perfeições, os rigores.

Ontem foi vista entre as gentes,

e há dúvida desde entonces,

se é Anjo em traje de fera,

se é fera em forma de bronze.

É tal Floral, não sei, se o diga,

nem se de Humana tem nome;

é Floralva, e tenho dito,

ou perdoe, ou não perdoe.

Pintar-vos quero as feições

deste mármore, deste roble,

constantes como o seu tronco,

lindas como as suas flores.

Quando humana, e quando ociosa

as negras tranças descolhe

em pélagos de azeviche,

não há alma, que não soçobre.

Nas sobrancelhas Amor

traidoras armas esconde,

os olhos as julgam arcos,

mas sente-as a alma fulgores.

Ardor, e neve seu rosto

mistura em tintas conformes,

porque é tão divina, que

faz unir, o que é discorde.

Se as pérolas de seus dentes

não foram do dia alvores,

a Aurora faltara ao dia,

eterna seria a noite.

A boca é tão incendida,

que em um cravo se recolhe,

e parece ensanguentada,

que em lugar de abrir, a rompe.

Este assombro das Deidades,

esta admiração das orbes

por meu bem quis Deus, que a visse,

e Amor por meu mal, que a adore.

Mas sabei, que a meu afeto

tão ingrata corresponde,

que a seu natural ofendem

até seus mesmos louvores.