SE NÃO POSSO IR RASTEJANDO

By Gregório de Matos Guerra

Como se pode alcançar

de dous, que se querem bem,

qual terá maior pesar,

se o que vai para tornar,

se o que espera, por quem vem.

Se não posso ir rastejando

a pena, que pode ter,

quem há temor de perder

a prenda, que está logrando:

e se me confundo, quando

me disponho a penetrar

aquela pena, e pesar,

que deixa um bem já perdido,

do mal de ausente o sentido,

Como se pode alcançar?

Parece uma pena chica,

que chica é por tal arte,

que inda que a dor se reparte,

toda em um se multiplica:

pena, que mais se duplica,

quanto mais partida vem,

na extensão o aumento tem,

que a pena, que a ausência ordena,

sobre ser de dous, é pena

De dous, que se querem bem.

Se é pena de dous, que se amam,

quem não vê, que em tal querer

dobrado incêndio há de haver,

se há dous fogos, que se inflamam:

quando dous a um tempo clamam,

por força se há de aumentar

a um clamar outro clamar;

assim no mal de não ver-se

cresce a pena, sem saber-se

Qual terá maior pesar.

Quem vai, porque a pena rima,

deixa a alma, que se inflama,

para que anime, adonde ama

muito mais, que adonde anima:

quem fica, e se desanima,

quer logo as almas trocar,

por confundir, e ocultar,

qual mais sabe padecer,

quem fica para não ver,

Se o que vai para tornar.

Nesta confusão de amor

duvida a perplexidade,

nunca se sabe a verdade

sobre a ventagem da dor:

mas o discreto Leitor,

que quer lhe resolva em bem,

o que o mote em si contém,

veja, que tem mais cuidado,

quem não vem, sendo esperado,

Se o que espera, por quem vem.