SEGUNDA FUNÇÃO QUE TEVE COM ALGUNS SUGEYTOS NA ROÇA DE HUM AMIGO JUNTO AO DIQUE,...

By Gregório de Matos Guerra

Fez-se a segunda jornada

da comédia, ou comedia,

que inda nos deu melhor dia,

do que a jornada passada:

vimos a mesma selada,

e de vinho a mesma cópia,

de ovos maior cornucópia

que a de Almatéia florida,

e sendo a mesma comida,

contudo não era a própria.

Já Pedro esperava adrede

da culatra tão sarnento,

que embalançando-se ao vento

era um cação em rede:

versos a matéria pede,

me disse a sua lazéria,

e se os faço com miséria,

não se espante, quem os lê,

de que tanta sarna dê

(se é podre) tanta matéria.

Cantou-se galhardamente

tais solos, que eu disse, ô

que canta o pássaro só,

e os mais gritam na semente:

tocou-se um som excelente,

que Arromba lhe vi chamar,

saiu Temudo a bailar,

e Pedro, que é folgazão

bailou com pé, e com mão,

e o cu sempre num lugar.

Pasmei eu da habilidade

tão nova, e tão elegante,

porque o cu sempre é dançante

nos bailes desta cidade:

mas em tal calamidade

tinha Pedro o cu sarnudo,

que dando de olho, ao Temudo

disse pelo socarrão,

assim tivera o cu são,

como tenho o cu sisudo.

Pôs-se a mesa, e escabelos,

foram seguindo-se os pratos,

que eram tanto à vista gratos,

como ao gasnate eram belos:

Pedro se pôs a lambê-los,

e dando-se a Berzabu

de não beber com Jelu

o licor, que o entorpeça,

porque o que dá na cabeça,

temeu, lhe desse no cu.

Não quis o cu inflamar,

por isso bebeu só água,

do que nós com grande mágoa

nos pusemos a chorar:

este fim teve um folgar

de tanto gosto, e alinho,

de que eu colho, e esquadrinho

a exemplo da vida breve,

que quem rindo o vinho bebe,

chorando desbebe o vinho.