SENTIO-SE BRAZIA GRAVEMENTE DESTA SATYRA, E O POETA AGORA CAVILLOSAMENTE À SATIS...
Brásia: aqui para entre nós
muitos vossos males sinto,
porque me dizem, que minto,
no que falei contra vós:
se a informacão foi atroz,
os versos como seriam?
mas os que vos conheciam,
não me desmentiram não,
senão os da informação,
que esses são, os que mentiam.
Estou mui arrependido,
e muito desenganado,
de que este povo é malvado,
falso, fito, e fementido:
vós sois como o sol luzido,
que inda que eclipses padece,
como em um instante tece
mais gala a seu luzimento,
vencido o assombramento,
muito mais claro aparece.
Assim vós sombras vencendo
de inveja, e de detrações
ides com mais perfeições
a verdade amanhecendo:
eu a vossas luzes rendo
minha dor e contrição
de haver-vos dado ocasião
a tão sentidos pesares,
e pois o sol busca os mares,
não fujais meu pranto não.
Estou mui desenganado,
que os mesmos murmuradores
vão ao campo a buscar flores,
que não vêem no povoado:
por isso no ameno prado,
onde tendes as raízes,
há quatro flores de Lises
Escolástica, Apolônia,
a flor de Brásia, e Antônia
tão belas, como felizes.
Vivei por entre os verdores
de anos pousos, que contais,
com que cada qual sejais
a Matusalém das flores:
vivei tanto, que os amores
ao mesmo Amor ensineis,
e porque temo, falteis
de flores à condição,
na beleza, e duração
flores perpétuas sereis.
Tanto quero, que vivais,
que essoutras papoulas pardas
vendo flores tão galhardas
creiam, que as aventejais:
tanto assim permaneçais
tão mestra da formosura,
que té a flor mais futura,
que está ainda por nascer,
nasça só para aprender
beleza, e mais compostura.
E pois minha contrição
de todo me tem trocado,
eu me dou por perdoado,
sem ter conta de perdão:
mas faço conta, que não
hei de tornar a ofender-vos,
e se basta a merecer-vos,
meu sentimento, e meu pranto,
perdoai-me, Brásia, enquanto
busco algum modo de ver-vos.