SENTIO-SE BRAZIA GRAVEMENTE DESTA SATYRA, E O POETA AGORA CAVILLOSAMENTE À SATIS...

By Gregório de Matos Guerra

Brásia: aqui para entre nós

muitos vossos males sinto,

porque me dizem, que minto,

no que falei contra vós:

se a informacão foi atroz,

os versos como seriam?

mas os que vos conheciam,

não me desmentiram não,

senão os da informação,

que esses são, os que mentiam.

Estou mui arrependido,

e muito desenganado,

de que este povo é malvado,

falso, fito, e fementido:

vós sois como o sol luzido,

que inda que eclipses padece,

como em um instante tece

mais gala a seu luzimento,

vencido o assombramento,

muito mais claro aparece.

Assim vós sombras vencendo

de inveja, e de detrações

ides com mais perfeições

a verdade amanhecendo:

eu a vossas luzes rendo

minha dor e contrição

de haver-vos dado ocasião

a tão sentidos pesares,

e pois o sol busca os mares,

não fujais meu pranto não.

Estou mui desenganado,

que os mesmos murmuradores

vão ao campo a buscar flores,

que não vêem no povoado:

por isso no ameno prado,

onde tendes as raízes,

há quatro flores de Lises

Escolástica, Apolônia,

a flor de Brásia, e Antônia

tão belas, como felizes.

Vivei por entre os verdores

de anos pousos, que contais,

com que cada qual sejais

a Matusalém das flores:

vivei tanto, que os amores

ao mesmo Amor ensineis,

e porque temo, falteis

de flores à condição,

na beleza, e duração

flores perpétuas sereis.

Tanto quero, que vivais,

que essoutras papoulas pardas

vendo flores tão galhardas

creiam, que as aventejais:

tanto assim permaneçais

tão mestra da formosura,

que té a flor mais futura,

que está ainda por nascer,

nasça só para aprender

beleza, e mais compostura.

E pois minha contrição

de todo me tem trocado,

eu me dou por perdoado,

sem ter conta de perdão:

mas faço conta, que não

hei de tornar a ofender-vos,

e se basta a merecer-vos,

meu sentimento, e meu pranto,

perdoai-me, Brásia, enquanto

busco algum modo de ver-vos.