SENTIO-SE MARIANNA DE QUE O POETA PUBLICASSE SEU NOME SABENDO, O QUE DEVIA A THO...

By Gregório de Matos Guerra

Se tomar minha pena em penitência

Do êrro em que caiu o pensamento

Não abranda, mas dobra meu tormento:

A isto, e a mais obriga a paciência.

Bem conheço, Senhor, que hei errado,

Em pedir-vos afeto tão rendido,

Mas bem vêdes, que andei muito acertado,

Em vos dar meu amor enternecido:

Baste a pena de não ser vosso amado,

Se punir-me quereis por atrevido,

Que mereço da culpa a indulgência,

Se tomar minha pena em penitência.

Quando viram meus olhos a beleza

Dêsse rosto, e os mates dessa graça,

Logo a fé de querer-vos com firmeza

Dedicar-vos pensei do amor por traça:

Se julgais por arrôjo esta fineza,

Ou dizeis, que é meu êrro por desgraça,

Emendar-me, Senhora, não intento

Do êrro em que caiu o pensamento.

Sim dos tempos fiar posso a ventura,

Porque o tempo domina na vontade,

Mas medicina é esta, que não cura

de uma amor excessivo a enfermidade:

Porque eu logre essa rara formosura

Quer Amor, que deixeis a crueldade,

Que o remédio do tempo, como é lento,

Não abranda, mas dobra meu tormento.

Nesse cravo partido por fiança

Se o remédio do tempo é aplicado,

Não duvido, que só desta esperança

Viver possa o amor mais alentado:

Abster quero já agora da esquivança

Meu amor na esperança sossegado,

Que a viver um amor em abstinência

A isto, e a mais obriga a paciência.