SENTIO-SE MARIANNA DE QUE O POETA PUBLICASSE SEU NOME SABENDO, O QUE DEVIA A THO...
Se tomar minha pena em penitência
Do êrro em que caiu o pensamento
Não abranda, mas dobra meu tormento:
A isto, e a mais obriga a paciência.
Bem conheço, Senhor, que hei errado,
Em pedir-vos afeto tão rendido,
Mas bem vêdes, que andei muito acertado,
Em vos dar meu amor enternecido:
Baste a pena de não ser vosso amado,
Se punir-me quereis por atrevido,
Que mereço da culpa a indulgência,
Se tomar minha pena em penitência.
Quando viram meus olhos a beleza
Dêsse rosto, e os mates dessa graça,
Logo a fé de querer-vos com firmeza
Dedicar-vos pensei do amor por traça:
Se julgais por arrôjo esta fineza,
Ou dizeis, que é meu êrro por desgraça,
Emendar-me, Senhora, não intento
Do êrro em que caiu o pensamento.
Sim dos tempos fiar posso a ventura,
Porque o tempo domina na vontade,
Mas medicina é esta, que não cura
de uma amor excessivo a enfermidade:
Porque eu logre essa rara formosura
Quer Amor, que deixeis a crueldade,
Que o remédio do tempo, como é lento,
Não abranda, mas dobra meu tormento.
Nesse cravo partido por fiança
Se o remédio do tempo é aplicado,
Não duvido, que só desta esperança
Viver possa o amor mais alentado:
Abster quero já agora da esquivança
Meu amor na esperança sossegado,
Que a viver um amor em abstinência
A isto, e a mais obriga a paciência.