SER BOM POETA

By José Joaquim Correia de Almeida

Ser bom poeta é facílimo;

O ponto está em achar-se

O segredo de imitar-se,

Sob a capa do disfarce,

O que outros disseram,

O que outros fizeram.

Se a versejar me arriscara,

Cousa ímpia eu nunca diria,

Visto que Camães dizia,

Com acerto cousa impia,

E do grão Camões

Eu sigo as lições.

Faria logo um soneto,

Em que rimasse memória

Naturalmente com glória,

Com história e com vitória;

Porque assim contemplo

De Bocage exemplo.

Decantara em versos líricos

Os olhos de uma donzela

Bonita... não, porém bela

Qual a matutina estrela

Antes do arrebol

Trazer-nos o sol.

E tão ingênua, e tão pura,

Tão suave, tão mimosa,

Tão não sei quê, tão formosa

Como a purpurina rosa,

Que chamam gentil

Em dias de Abril.

Diria que a sobredita,

Qual florinha rorejada,

Em serena madrugada

Porfavônio bafejada,

É isca tão fresca

Que um coração pesca.

Morta a menina, eu bradara:

“Tudo no mundo perece!

E segundo me parece

Até a rosa emurchece,

Despindo a viva cor,

E vestindo o palor!

Celebrara em nênia triste,

Ao som do meu alaúde,

A donzela de virtude

Encerrada no ataúde...

A qual goze o bem

Para sempre. Amém.