SER BOM POETA
Ser bom poeta é facílimo;
O ponto está em achar-se
O segredo de imitar-se,
Sob a capa do disfarce,
O que outros disseram,
O que outros fizeram.
Se a versejar me arriscara,
Cousa ímpia eu nunca diria,
Visto que Camães dizia,
Com acerto cousa impia,
E do grão Camões
Eu sigo as lições.
Faria logo um soneto,
Em que rimasse memória
Naturalmente com glória,
Com história e com vitória;
Porque assim contemplo
De Bocage exemplo.
Decantara em versos líricos
Os olhos de uma donzela
Bonita... não, porém bela
Qual a matutina estrela
Antes do arrebol
Trazer-nos o sol.
E tão ingênua, e tão pura,
Tão suave, tão mimosa,
Tão não sei quê, tão formosa
Como a purpurina rosa,
Que chamam gentil
Em dias de Abril.
Diria que a sobredita,
Qual florinha rorejada,
Em serena madrugada
Porfavônio bafejada,
É isca tão fresca
Que um coração pesca.
Morta a menina, eu bradara:
“Tudo no mundo perece!
E segundo me parece
Até a rosa emurchece,
Despindo a viva cor,
E vestindo o palor!
Celebrara em nênia triste,
Ao som do meu alaúde,
A donzela de virtude
Encerrada no ataúde...
A qual goze o bem
Para sempre. Amém.