SER CONDOR
Ser condor! Espalmar as asas rumorosas
Nas manhãs de cristal, em pleno azul da esfera,
Para onde ascende solto o espírito das rosas
Que abre com as róseas mãos a rósea primavera;
Viajar da aurora à noite, errar de monte em monte,
Num vôo de dragão, cheio de heroicidade,
Saudar primeiro o sol que assoma o horizonte
Como um rubim jorrando intensa claridade;
Perlustrar, divagando, as mais remotas zonas
Da Atlântida, passeando o olhar por cousas grandes;
Pela manhã lavar as plumas no Amazonas
E à tarde adormecer no píncaro dos Andes;
Subir! subir! subir! A cúpula celeste
Quase roçando, ver o sideral tesoiro,
E trazer a plumosa e estrepidante veste
Cheia de áscuas de sol e de centelhas d’oiro;
As asas colossais de rijo espanejando
Sobre o vermelho mar dos campos de batalha,
Ver rolar esquadrões no embate formidando
Entre uivos de clarins e roncos de metralha;
Ouvir o crocitar frenético do vento
Sem medo, sem temor, sem sustos, sem desmaios,
E entre alas de bulcões cruzar o firmamento
Rechaçando no surto um batalhão de raios;
Zombar dos vendavais e do trovão que aterra
— Raucíssono tambor que crebramente rufa —
E, as garras encrespando, um cântico de guerra
Lançar ao furacão que torvelinha e bufa;
Muito acima pairar dos pântanos do Vício,
Dos horizontes sempre achando as portas francas,
E sonhar no cairel de um cavo precipício
Nos macios frouxéis das fofas nuvens brancas;
Viver longe do horror das cóleras humanas
Torvas como o grasnar famélico dos corvos?
Só, às vezes, pousar no colmo das choupanas
Onde não rugem nunca os desesperos torvos;
Amar o colibri por ser mimoso e belo,
O lírio — por ser casto, a pomba — por ser mansa;
Ter garras para as mãos que vibram o cutelo
E bico afiado como a ponta de uma lança;
Escorraçar a estrige e os mochos agoureiros
Que andam a gargalhar na cruz das sepulturas
Onde se abrem, sangrando em flores, nos canteiros,
Os rubros corações das lácteas virgens puras;
Como um audaz titã, ansioso de conquistas,
Asas abertas, fronte erguida, olhar chispante,
Vingar do Chimborazo as arrogantes cristas,
Na glória ascensional de um vôo espiralante;
Por cima de mameis, hortos, rechãs e pampas,
Planuras e vergéis, léguas de mole alfombra,
Florestas de torreões e coruchéus e campas,
Atravessar deixando apenas uma sombra;
Em busca de outro clima, em busca de outros ares,
Num fragor de tufão, vertiginosamente
Arrojar-me através do torvelim dos mares
Que ameaçam devorar, urrando, o Continente:
Eis a excelsa ilusão que o cérebro me inflama,
Os icários ideais que há muito me consomem!...
Quem me dera asas ter para fugir da lama
A que me trazem preso estas algemas de homem!