SER CONDOR

By Gustavo de Paula Teixeira

Ser condor! Espalmar as asas rumorosas

Nas manhãs de cristal, em pleno azul da esfera,

Para onde ascende solto o espírito das rosas

Que abre com as róseas mãos a rósea primavera;

Viajar da aurora à noite, errar de monte em monte,

Num vôo de dragão, cheio de heroicidade,

Saudar primeiro o sol que assoma o horizonte

Como um rubim jorrando intensa claridade;

Perlustrar, divagando, as mais remotas zonas

Da Atlântida, passeando o olhar por cousas grandes;

Pela manhã lavar as plumas no Amazonas

E à tarde adormecer no píncaro dos Andes;

Subir! subir! subir! A cúpula celeste

Quase roçando, ver o sideral tesoiro,

E trazer a plumosa e estrepidante veste

Cheia de áscuas de sol e de centelhas d’oiro;

As asas colossais de rijo espanejando

Sobre o vermelho mar dos campos de batalha,

Ver rolar esquadrões no embate formidando

Entre uivos de clarins e roncos de metralha;

Ouvir o crocitar frenético do vento

Sem medo, sem temor, sem sustos, sem desmaios,

E entre alas de bulcões cruzar o firmamento

Rechaçando no surto um batalhão de raios;

Zombar dos vendavais e do trovão que aterra

— Raucíssono tambor que crebramente rufa —

E, as garras encrespando, um cântico de guerra

Lançar ao furacão que torvelinha e bufa;

Muito acima pairar dos pântanos do Vício,

Dos horizontes sempre achando as portas francas,

E sonhar no cairel de um cavo precipício

Nos macios frouxéis das fofas nuvens brancas;

Viver longe do horror das cóleras humanas

Torvas como o grasnar famélico dos corvos?

Só, às vezes, pousar no colmo das choupanas

Onde não rugem nunca os desesperos torvos;

Amar o colibri por ser mimoso e belo,

O lírio — por ser casto, a pomba — por ser mansa;

Ter garras para as mãos que vibram o cutelo

E bico afiado como a ponta de uma lança;

Escorraçar a estrige e os mochos agoureiros

Que andam a gargalhar na cruz das sepulturas

Onde se abrem, sangrando em flores, nos canteiros,

Os rubros corações das lácteas virgens puras;

Como um audaz titã, ansioso de conquistas,

Asas abertas, fronte erguida, olhar chispante,

Vingar do Chimborazo as arrogantes cristas,

Na glória ascensional de um vôo espiralante;

Por cima de mameis, hortos, rechãs e pampas,

Planuras e vergéis, léguas de mole alfombra,

Florestas de torreões e coruchéus e campas,

Atravessar deixando apenas uma sombra;

Em busca de outro clima, em busca de outros ares,

Num fragor de tufão, vertiginosamente

Arrojar-me através do torvelim dos mares

Que ameaçam devorar, urrando, o Continente:

Eis a excelsa ilusão que o cérebro me inflama,

Os icários ideais que há muito me consomem!...

Quem me dera asas ter para fugir da lama

A que me trazem preso estas algemas de homem!