Ser pássaro

By João da Cruz e Sousa

Ah! Ser pássaro! ter toda a amplidão dos ares

Para as asas abrir, ruflantes e nervosas,

Dos parques através e dos moitais de rosas,

Nos floridos jardins, nas hortas e pomares.

Ser pássaro, cantar, subir, voar na altura,

Pelos bosques sem fim, perder-se nas florestas,

Das folhagens do campo em meio da espessura,

Das auroras de abril nas cristalinas festas.

Tecer no tronco seco ou no tronco viçoso

O quente lar do amor, o carinhoso ninho,

De onde sairá mais tarde o pipilar mavioso

De um outro mais gentil e meigo passarinho.

Não temer o verão e não temer o inverno

Para tudo alcançar na leve subsistência,

No contínuo lidar, no labutar eterno,

Que é talvez da alegria a mais feliz essência.

Viver, enfim, de luz e aromas delicados

Nascido dentre a luz, gerado dentre aromas,

Sonorizando o azul, sonorizando os prados

E dormindo da flor sob as cheirosas comas.

Voar, voar, voar, voar eternamente,

Extinguir-se a voar, no matinal gorjeio,

E ser pássaro, é ter em cada asa fremente

Um sol para aquecer o frio de algum seio.