Serenata

By João da Cruz e Sousa

É luar! Chega à janela,

Vai alta e branca a Lua bela

E fria...

Ó monja de áureo convento

Surgindo no peristilo,

À tona do firmamento

Tranquilo...

Dentre as celas aparece

Nas tuas vestes talares,

Vem ver dos fluidos luares

A prece...

Essa láctea claridade

Da noite profunda e vasta,

Mais casta que a Castidade,

Mais casta...

Entre os trêmulos nevoeiros

E os magnetismos da Lua,

Ofélia à flor dos salgueiros

Flutua!

O luar por tudo transborda

E tudo alaga e prateia...

Bandolins gemem na corda,

Sereia!

Na corda feita dos fios

Das estrelas palpitantes,

Dos raios, dos amavios

Radiantes!

Ondulam Silfos e Amores

Rendas, sedas e vidrilhos

De imaculados alvores

E brilhos!

Do fundo dos claustros raia,

Hóstias de ouro, monja doente!

Envolva-te essa cambraia

Fulgurante!

Que a Ceres de altas seara

De uma aréola te circunde,

E na luz ideal e clara

Te inunde...

Que a Lua é loura entre entre as louras,

Virginal entre as mulheres

E das etéreas lavouras

A Ceres!

Trilha os límpidos caminhos,

As celeiras luminosas,

De veludosos arminhos,

E rosas!

A todos abre da altura,

A Bíblia dos vagos ritos,

Da Quimera e da Ternura

Dos Mitos...

Vem, ó monja, entre as neblinas

Dos lírios, das açucenas,

Das volatas peregrinas,

Serenas!

Como o luar do Sonho alaga,

Vem vogar do Sonho agora,

Na doce, na branda vaga

Sonora...

Nua e soltos os cabelos,

Monja branca dos Mistérios,

Ressurge através dos gelos

Sidéreos.

Teu corpo ebúrneo e perfeito,

De beleza intemerata,

Tem no luar um níveo leito

De prata...

É luar! Chega à janela,

Vai alta a Lua erradia,

Alta e branca a Lua bela

E fria...