Serenata
É luar! Chega à janela,
Vai alta e branca a Lua bela
E fria...
Ó monja de áureo convento
Surgindo no peristilo,
À tona do firmamento
Tranquilo...
Dentre as celas aparece
Nas tuas vestes talares,
Vem ver dos fluidos luares
A prece...
Essa láctea claridade
Da noite profunda e vasta,
Mais casta que a Castidade,
Mais casta...
Entre os trêmulos nevoeiros
E os magnetismos da Lua,
Ofélia à flor dos salgueiros
Flutua!
O luar por tudo transborda
E tudo alaga e prateia...
Bandolins gemem na corda,
Sereia!
Na corda feita dos fios
Das estrelas palpitantes,
Dos raios, dos amavios
Radiantes!
Ondulam Silfos e Amores
Rendas, sedas e vidrilhos
De imaculados alvores
E brilhos!
Do fundo dos claustros raia,
Hóstias de ouro, monja doente!
Envolva-te essa cambraia
Fulgurante!
Que a Ceres de altas seara
De uma aréola te circunde,
E na luz ideal e clara
Te inunde...
Que a Lua é loura entre entre as louras,
Virginal entre as mulheres
E das etéreas lavouras
A Ceres!
Trilha os límpidos caminhos,
As celeiras luminosas,
De veludosos arminhos,
E rosas!
A todos abre da altura,
A Bíblia dos vagos ritos,
Da Quimera e da Ternura
Dos Mitos...
Vem, ó monja, entre as neblinas
Dos lírios, das açucenas,
Das volatas peregrinas,
Serenas!
Como o luar do Sonho alaga,
Vem vogar do Sonho agora,
Na doce, na branda vaga
Sonora...
Nua e soltos os cabelos,
Monja branca dos Mistérios,
Ressurge através dos gelos
Sidéreos.
Teu corpo ebúrneo e perfeito,
De beleza intemerata,
Tem no luar um níveo leito
De prata...
É luar! Chega à janela,
Vai alta a Lua erradia,
Alta e branca a Lua bela
E fria...