SERVIU LUÍS A ISABEL

By Gregório de Matos Guerra

Amar Luís a Maria,

amaria não é amar

logo como pode estar

num tempo amar, e amaria.

Serviu Luís a Isabel

Por prêmio de um favor só

mais tempo do que Jacó

serviu à bela Raquel:

e porque Isabel infiel

o enganou de dia em dia,

em pena de aleivosia

em Maria o empreguei,

e então lhe certifiquei

Amar Luís a Maria.

Deixei-a tão persuadida,

quanto ela é presuntuosa,

que o presumir de formosa

persuade o ser querida:

porém como é entendida,

e em toda a arte de amar

sabe mui bem conjugar,

disse, tomando-me a mão,

que em boa conjugação

Amaria não é amar.

Que amaria é imperfeito,

e perfeito o ter amado,

e a um presente cuidado

não serve o plus-quão-perfeito:

vi eu a Moça de jeito,

que me pus pela quietar

nesta forma a conjugar

“Amar Luís, e amaria

não está em filosofia”,

Logo como pode estar?

Este aparente argumento,

e sutil proposição

não só tirou a questão,

mas deu-lhe contentamento:

firme enfim ao fundamento

da minha sofisteria

diz, que a boa astronomia

tem uns pontos tão sutis,

que pode estar em Luís

Num tempo amar, e amaria.