Sete de setembro

By João da Cruz e Sousa

Liberdade! Independência!...

Eis os brados grandiosos

Que quais raios luminosos

Fulguraram lá nos céus!...

Eis a mágica — Odisseia

Que duns lábios rebentando,

Foi o povo transformando,

Foi rompendo os negros véus!...

As colinas, prados, montes,

As florestas seculares

— Os sertões, os próprios mares

Exultaram com fervor!

E os brados retumbaram

Pela lúcida devesa,

Pela virgem natureza

Com homérico clangor!...

Qual artista consumado,

Qual um velho estatuário

Do Brasil no azul sacrário,

Essa data vos traçou,

— O triunfo mais pujante,

A eleita das ideias,

A major das epopeias

— Q’Inda igual não se gerou!...

Mas embora, meus senhores

Se festeje a Liberdade,

A gentil Fraternidade

Não raiou de todo, não!...

E a pátria dos Andradas

Dos — Abreu, Gonçalves Dias

Inda vê nuvens sombrias,

Vê no céu fatal bulcão!...

Muito embora Rio Branco,

Esse cérebro profundo

Que passou por entre o mundo,

Do Brasil como um Tupã!...

Muito embora em catadupas

Derramasse o verbo augusto,

Da nação no enorme busto

Inda a mancha existe, há!...

É preciso com esforço,

Colossal, estranho, ingente,

Ir o cancro, de repente

Esmagar que nos corrói!...

É preciso que essa Deusa,

A excelsa Liberdade,

Raie enfim na Imensidade

Mais altiva como sói!...

Sai da larva a borboleta

Com as asas auriazuis

E um disco vai — de luz

A deixar onde passou!

No entanto o grande berço

Das façanhas de Cabrito

Inda espera um novo grito

Como o — Basta — de Waterloo!...

Eu bem sei que Guttenberg

Que esse Fulton primoroso

Faust, Kepler grandioso

Trabalharam té vencer!

Mas embora tropeçassem

Acurando os seus eventos,

Tinham sempre tais portentos

A vontade por poder!...

Eia! sim! — p’ra Liberdade

Irrompei qual verbo eterno,

Como o — Fiat — superno

Pelos ares a rolar!

Eia! sim! — que nossa pátria

Só precisa — mas de bravos...

E em prol desses escravos

Seu dever é trabalhar!!...

Somos filhos dessa gleba

Majestosa aonde o gênio

Como o astro do proscênio

Solta as asas, mui febril!

Dos selvagens Tiaraiús

E dos brônzeos Guaicurus...

Somos filhos do Brasil!...

Esperemos, tudo embora!...

Pois que a sã locomotiva,

Do progresso imagem viva

Não se fez a um sopro vão!.

Aguardemos o momento

Das mais altas epopeias,

Quando o gládio das ideias

Empunhar toda a nação!...

Esperemos mais um pouco

Q’inda há almas brasileiras

Que se lembrarão, sobranceiras,

Que é preciso progredir!...

Inda há peitos valerosos

Que combatem descobertos

Por florestas, por desertos,

Mas c’os olhos no porvir!...

Inda há lúcidas falanges

Lutadores denodados

Que se erguem transportados

Burilando a sã razão!...

Inda há quem se recorde

Do Egrégio Tiradentes

Que do sangue as gotas quentes

Derramou pela nação!!...

Já nas margens do Ipiranga

Patrióticos acentos

Vão alados como os ventos

Pelos páramos azuis!!...

Vamos! Vamos! — eia! exulta,

Jovem pátria dos renomes...

— Vibra a lira, Carlos Gomes!

Bocaiuva, espalha luz!!...