Sganarelo

By João da Cruz e Sousa

Esse que eu agora rimo

É viscoso como a lesma

Pegajosa sobre o limo,

Sinistro como aventesma.

Feia coisa, enorme bicho,

Pavoroso mastodonte

Feito do horror a capricho,

Com cornos rijos na fronte.

Todo o ventre se lhe estufa

De obesidade lasciva,

Se fala a voz urra e bufa

Lembrando a locomotiva.

Na terrível carantonha

Retorcida, escalavrada,

Lhe estruge, às vezes medonha,

Formidável gargalhada.

E à luz do sol, que corusca,

Nas praças, à luz do dia,

A sua presença brusca,

Tem uma ardente ironia.

A língua rubra e convulsa

Sai-lhe da boca em espasmo,

Enquanto no olhar lhe pulsa

A blasfêmia do sarcasmo.

Capra figura profunda,

Atroz e amedrontadora,

Que larga entranha fecunda

Foi a tua geradora?!

Que aborto de ventre estranho

Pode gerar esse aborto

Assim feroz e tamanho,

Peludo, estroncado e torto?

De que idades tão antigas,

Pré-históricas vieste?

Mais hostil do que as urtigas,

Mais nefando de que a peste!

Trazes a pata esmagante,

A pata do bronze trazes;

Que é no espírito diamante

E que é nas almas lilazes.

Possuis o sangue da verve

Resplandecente, infinita,

Que ruge, palpita e ferve

E canta e soluça e grita.

Vens como imagem da Morte,

Da Morte hedionda e nefasta,

Das iras ao vento forte,

Do desespero a vergasta.

Desmancha-te em cabriolas

De doido polichinelo,

Que os teus membros lembrem molas

Como um palhaço amarelo.

Faz nos músculos esgrimas,

Pula trapézios e barras

E salta saltando estas rimas

Que vão saltando bizarras.

Acrobata da miséria

Estica os nervos, estica

E ri, ri tu da matéria

Da gente fidalga e rica.

És medonho?! isso que importa?

Ri! mas ri alto na praça,

Se a desgraça não foi morta,

Ah! deixem rir a desgraça!

Satanás sujo e potrudo

Nas cambalhotas te inspire.

Eia! vá! desdém por tudo,

Por tudo, e o tempo que gire!

Faz que o século se agite

De eternas risadas grossas

E como com dinamite

Arromba o mundo com troças.

Fura o estúrdio Sancho Pança

Com estocadas de riso

E mete-o também na dança

Dos saltos, se for preciso.

Destrói tudo, vai, desaba,

De tudo faz estilhaços

E a golpes de riso acaba

Os erros córneos e crassos.

Fura os ventres mais rotundos

Com aguilhões de chacota

E manda ao Mestre dos mundos

Um exemplar da risota.

Na tal luxúria gorducha,

Na velha e calva luxúria

Rebente risos em ducha,

Com toda a sátira e fúria.

Ri! até que se transforme,

O rebelado do inferno!

O riso num facho enorme

Aceso no sol moderno!