Smorzando

By João da Cruz e Sousa

O véu da tarde cai pelas quebradas

Das serras altaneiras;

As aves condoreiras

Rompem da mata em místicas risadas

O largo espaço intérmino cindindo.

A livre natureza,

Humildemente, pura, vai caindo,

Caindo de joelhos

Como esse denso véu

Cai na viril e rútila grandeza

Do sol que desce em borbotões vermelhos

Como uma mancha tropical no céu.

E vibra a Ave-Maria

Como um soluço, estranho, indefinido;

Talvez como um gemido

Dentre a escalvada e agreste serrania.

E desce e desce e desce

De toda a imensidade

A salutar carícia de uma prece,

O eflúvio da saudade

Que alaga o nosso peito heroicamente

Como o luar de um treno

Mavioso e emoliente,

Mais doce que o sorrir do Nazareno.