Sob as árvores

By João da Cruz e Sousa

Eu caminhava taciturno e incerto

Por debaixo das árvores solenes...

Tu a meu lado caminhavas perto,

Cheia de aromas e clarões perenes.

E as árvores vitais, luminosas,

Formando verde abóbada d’espaços

Cercavam-nos de sombras silenciosas

E nos abriam docemente os braços.

No meio dos rumores da folhagem

Ouvíamos, mais flébeis e mais finas,

As músicas chorosas da ramagem

Das esgalhadas e altas casuarinas.

E essa música lânguida e sensível,

Desfeita em sons alados, peregrinos,

Parecia uma arcada indescritível

Dos mais harmoniosos violinos.

E eu quis saber do coração profundo

Das árvores atléticas e calmas

Por que é que sempre neste vasto mundo

É a dor o grilhão das nossas almas.

Se nós que vamos soluçando e rindo

Dos vendavais sob a vergasta forte,

Não estamos talvez nos iludindo,

Vivendo para atordoar a morte!

Se o frio corpo, o coração já morto

Por dentro de uma cova escura e rasa,

Não tem a gente o mesmo igual conforto

Que dentro da afeição da sua casa!

Se o cadáver gelado e ressequido,

Dentre a ironia trágica dos vermes,

Não solta ao menos nem um só gemido

Que vibre à flor das murchas epidermes!

Se há criaturas tão desiludidas

Das venturas e glórias mais insanas,

Que não fiquem dolentes e vencidas

Sob o togante das paixões humanas!

Mas, oh! somente às legiões serenas

Das interrogações desses assuntos,

O teu olhar me respondia apenas

Com o brilho ideal de muitos astros juntos!