Sobre uma página do QUO VADIS?
O triclínio é um jardim. Coroados de rosas,
Na fofez dos coxins de purpurinas cores,
Os convivas, pompeando as togas ondulosas,
Rendilham frases delicadas como flores...
Cai do teto uma chuva ebriante de violetas.
Dos globos de cristal azul da Alexandria
Partem flechas de luz, transluminosas setas,
Que avivam o clarão da iriante pedraria.
A baixela resplende em brilhos d’oiro acesa
Entre folhas de mirto e entrelaçadas heras
Que enfeitam vernalmente a luculana mesa.
As ancilas liriais — cheirosas primaveras —
Ungem de nardo e mirra os pés dos convidados,
Mostrando os seios nus e o cabelo desnastro
Capazes de prender os deuses enlevados
Com fulvos fios d’oiro em postes de alabastro...
Matinal alegria os rostos ilumina.
Das ânforas de prata aos cálices radiantes
Jorra o espumante Cós, que os ânimos domina,
Borbulhando à feição das fontes murmurantes.
Chocam-se, espaço a espaço, as primorosas taças
Em que fulgem astrais incrustações de gemas,
E, entre sons de cristais e cintilantes graças,
Petrônio faz à Eunícia as confissões extremas...
Brilham opalas ricamente facetadas
Dando beijos de luz no alvor das jovens belas,
E é tal a irradiação das joias abrasadas
Que a gente cuida estar no Olimpo entre as estrelas!
A todos causa assombro o fausto régio, insano;
Das iguarias sobe o capitoso aroma:
Pois os raros festins do artista soberano
Rebaixam os festins do Imperador de Roma!
Petrônio atrai as atenções da sala toda
Comentando, risonho, as corridas, a luta
Dos gladiadores, os escândalos e a moda
Com toques de ironia alfinetante e arguta.
O vinho pouco a pouco os cérebros inflama,
E em meio da palestra, oculta num gracejo,
Zumbe ferinamente a abelha do epigrama!
Soa de quando em vez a música de um beijo
Deposta na maciez de um colo alabastro...
Petrônio, ao derramar o Cós, que murmurinha,
(E a mão — cacho de anéis — flameja como um astro!)
Anuncia que bebe em honra da rainha
De Chipre a mais egrégia e antiga divindade;
Faz um sinal, e logo as cítaras sonoras
Vibram acompanhando a orfeica suavidade;
Das vozes festivais como um rumor de auroras...
Movendo com os quadris de redondez graciosa,
Dançarinas, vestindo estofos transparentes,
Bailam, deixando ver, como botões de rosa,
Os bicos de rubi dos seios lactescentes...
Depois um adivinho egípcio toma um vaso
E faz as predições dos trâmites da vida,
Que para alguns é um sol quase a esmaiar no ocaso,
— Pela coloração cambiante da bebida...
Petrônio no coxim da Síria o torso apruma
E murmura: — “Aceitai, amigos, em lembrança
Deste dia, que o amor, como um jasmim, perfuma,
A taça em que bebeis numa cordial folgança!”
E fazendo faiscar a taça de Mirrena,
Que do arco-íris ostenta os lúcidos reflexos,
Firme qual justo ao fim da provação terrena,
Continua perante os áulicos perplexos:
— “Eis a taça com que, neste feliz instante,
À rainha de Chipre eu saúdo. Em verdade
Ninguém lhe tocará com os lábios doravante,
Nas libações em honra a uma outra divindade!”
E no fino mosaico ainda polvilhado
De açafrão, acendendo um riso de vitória,
Em partículas quebra o mimo arcoirizado
Que tanta vez ergueu como um troféu de glória!
Ante o pasmo geral, Petrônio, a rir, prossegue:
— “Dos males a velhice é o mais amargo e sério:
Mas, antes que com o seu cortejo infando chegue,
Vou transpor o limiar do nebuloso império...
Mas quero divertir-me ainda ao som de um hino,
De Eunícia contemplar as formas harmoniosas,
E, fechando a sorrir o livro do destino,
Adormecer sonhando entre formas e rosas!
Eu já me despedi do sátiro”. — E, tirando
De sob o seu coxim de púrpura uma carta,
Petrônio a lê, o seu efeito prelibando,
Homérico e triunfal como um herói de Esparta!