Socorrendo os náufragos
A tarde, toda azul, era um lírio orvalhado,
Dentro do qual o sol parecia um besouro
Poeirado de ouro.
E quando o sol rolou de dentro dessa flor,
Como se lhe tivesse alguém, com mãos estranhas,
Jogado para trás da curva das montanhas,
Fez-se ouvir, muito ao longe, um som repercussor,
Bem parecido com o de um grande canhão.
Era a repercussão de um longínquo trovão
Pejando a nuvem que, ao sul, se levantava,
Pouco a pouco se aproximava...
Até então,
Todo o campo verduengo; e as praias; e a planura
Do mar aveludado; e todos os riachos
Da esplanada da vila;
Tudo, tudo isso ardia em diamantinos fachos,
Em completa iluminura,
Numa luz suavíssima e tranquila.
Até então,
Tudo quanto se via em derredor da Ilha
Era uma maravilha de esplendores
De variadas cores;
E de gritos infinitos
De luxúrias, nas ervas e nas flores,
E no arvoredo à beira dos caminhos,
Por sobre o qual trinavam passarinhos,
E zumbiam abelhas...
Da casaria nas recurvas telhas,
E pelas vidraças das janelas,
Os reflexos do sol abriam-se em tecidos
De aranhol.
Pela fita das praias
Em dalmáticas, fúlgidas alfaias,
Que pinceladas amarelas,
De óleos batidos com topázios diluídos!...
Até então,
Todos os corações achavam-se vestidos
De tranquilidade,
Sob o vivo esplendor, a viva claridade
Do sol de ouro,
Que, no lírio do céu, parecia um besouro.
Mas a nuvem chegou,
E tudo que era belo se nublou.
Fez-se uma escuridão
Como se fosse um monte de carvão.
Despencaram-se do ar rolos de ventos
Sinistros, tenebrosos, agourentos...
E outro trovão rolou, entre línguas de fogo,
E logo a chuva se alastrou,
Peneirada de lado, ao correr das lufadas.
Que alvoroço e temor, pelas estradas!
Mas o muito maior e fremente alvoroço
Deu-se na praia do mar grosso,
Quando a lancha do João,
Vinda da pescaria,
Apanhando o tufão,
Ora às ondas subia, ora às ondas descia,
Com a vela molhada a rastejar nas ondas,
Sobre um fundo sem termo, onde não vão as sondas...
Sendo o barco afinal, levado,
De quilha para cima, às rochas do pontal
De onde, peito aflitivo, alucinado
Uma pobre mulher fazia-lhe um sinal.
Vinha ao leme, o João; e o Pedro, vinha à escota
De vela toda rota...
Porém, nem mesmo assim, o barco não deixou
De virar-se, e alijar
Os rapazes ao nado... E eles, os dois, coitados!
Com os remos desprezados,
E braços fatigados,
Ao se verem no mar e tamanha fadiga,
Nessa luta inimiga,
Lembraram-se de ti, Nossa Senhora.
Nessa hora
A treva fez-se luz; e fez-se, o mar bravio.
Um rio...
E num momento,
Acabou-se também toda a fúria do vento.
Os rapazes lutaram
Mas à praia chegaram
Com salvamento.
Ah! que instante feliz para os rapazes,
Para esses crentes corações audazes!...
E a tia Margarida,
Uma velhinha que levava a vida
A rezar... a rezar
Pelos que viviam, tristes, a lutar
Contra as ondas do mar,
Muito admirada ficou, muito admirada,
Porque nem tu, Senhora dos Navegantes,
Nem o teu barquinho,
De bujarrona de cetim e arminho,
Durante esse momento
De tanto mar furioso e tanto vento,
Foram vistos por ela em teu florido altar!