Socorrendo os náufragos

By Juvêncio de Araújo Figueredo

A tarde, toda azul, era um lírio orvalhado,

Dentro do qual o sol parecia um besouro

Poeirado de ouro.

E quando o sol rolou de dentro dessa flor,

Como se lhe tivesse alguém, com mãos estranhas,

Jogado para trás da curva das montanhas,

Fez-se ouvir, muito ao longe, um som repercussor,

Bem parecido com o de um grande canhão.

Era a repercussão de um longínquo trovão

Pejando a nuvem que, ao sul, se levantava,

Pouco a pouco se aproximava...

Até então,

Todo o campo verduengo; e as praias; e a planura

Do mar aveludado; e todos os riachos

Da esplanada da vila;

Tudo, tudo isso ardia em diamantinos fachos,

Em completa iluminura,

Numa luz suavíssima e tranquila.

Até então,

Tudo quanto se via em derredor da Ilha

Era uma maravilha de esplendores

De variadas cores;

E de gritos infinitos

De luxúrias, nas ervas e nas flores,

E no arvoredo à beira dos caminhos,

Por sobre o qual trinavam passarinhos,

E zumbiam abelhas...

Da casaria nas recurvas telhas,

E pelas vidraças das janelas,

Os reflexos do sol abriam-se em tecidos

De aranhol.

Pela fita das praias

Em dalmáticas, fúlgidas alfaias,

Que pinceladas amarelas,

De óleos batidos com topázios diluídos!...

Até então,

Todos os corações achavam-se vestidos

De tranquilidade,

Sob o vivo esplendor, a viva claridade

Do sol de ouro,

Que, no lírio do céu, parecia um besouro.

Mas a nuvem chegou,

E tudo que era belo se nublou.

Fez-se uma escuridão

Como se fosse um monte de carvão.

Despencaram-se do ar rolos de ventos

Sinistros, tenebrosos, agourentos...

E outro trovão rolou, entre línguas de fogo,

E logo a chuva se alastrou,

Peneirada de lado, ao correr das lufadas.

Que alvoroço e temor, pelas estradas!

Mas o muito maior e fremente alvoroço

Deu-se na praia do mar grosso,

Quando a lancha do João,

Vinda da pescaria,

Apanhando o tufão,

Ora às ondas subia, ora às ondas descia,

Com a vela molhada a rastejar nas ondas,

Sobre um fundo sem termo, onde não vão as sondas...

Sendo o barco afinal, levado,

De quilha para cima, às rochas do pontal

De onde, peito aflitivo, alucinado

Uma pobre mulher fazia-lhe um sinal.

Vinha ao leme, o João; e o Pedro, vinha à escota

De vela toda rota...

Porém, nem mesmo assim, o barco não deixou

De virar-se, e alijar

Os rapazes ao nado... E eles, os dois, coitados!

Com os remos desprezados,

E braços fatigados,

Ao se verem no mar e tamanha fadiga,

Nessa luta inimiga,

Lembraram-se de ti, Nossa Senhora.

Nessa hora

A treva fez-se luz; e fez-se, o mar bravio.

Um rio...

E num momento,

Acabou-se também toda a fúria do vento.

Os rapazes lutaram

Mas à praia chegaram

Com salvamento.

Ah! que instante feliz para os rapazes,

Para esses crentes corações audazes!...

E a tia Margarida,

Uma velhinha que levava a vida

A rezar... a rezar

Pelos que viviam, tristes, a lutar

Contra as ondas do mar,

Muito admirada ficou, muito admirada,

Porque nem tu, Senhora dos Navegantes,

Nem o teu barquinho,

De bujarrona de cetim e arminho,

Durante esse momento

De tanto mar furioso e tanto vento,

Foram vistos por ela em teu florido altar!