SOLILOQUIO DE ME. VIOLANTE DO CEO AO DIVINISSIMO SACRAMENTO: GLOZADO PELO POETA, PARA TESTEMUNHO DE SUA DEVOÇÃO, E CREDITO DAVENERAVEL RELIGIOSA.
Soberano Rei da Glória,
que nesse doce sustento
sendo todo entendimento
quisestes ficar memória.
Numa cruz vos exaltastes,
meu Deus, para padecer,
e nas ânsias de morrer
ao Eterno Pai clamastes:
sangue com água brotastes
do lado para memória,
e como consta da História,
quisestes morrer constante
por serdes tão fino amante,
Soberano Rei da Glória.
Se na glória, em que reinais,
amante vos concedeis
bem mostrais, no que fazeis,
que extremosamente amais:
mas se em pão vos disfarçais,
dando-vos por alimento,
pergunta o entendimento,
onde assistis com mais luz?
mas direis, doce Jesus
Que nesse doce sustento.
Sabendo enfim, que morríeis,
amante vos entregastes,
e no Horto, quando orastes
ânsias de morte sentíeis:
já, divino Amor, sabíeis,
da vossa morte o tormento,
e já desde o nascimento
todo o saber comprendestes,
porque, Senhor, já nascestes
Sendo todo entendimento.
Vivas lembranças deixastes
da vossa morte, Senhor,
e para maior amor
mesmo em lembrança ficastes:
numa ceia apresentastes
vosso corpo em tanta glória,
que para contar a história
da vossa morte, e tormento,
no divino Sacramento
Quisestes ficar memória.
Sol, que estando abreviado
nesse cândido Oriente,
abonais o mais ardente,
ostentando o mais nevado.
Sendo Sol, que dominais
dos céus a máquina fera,
em tão limitada esfera,
como esse Sol ostentais?
creio, que a entender nos dais,
meu Redentor extremado,
que em lugar tão limitado
só o amor caber se atreve
como num círculo breve
Sol, que estando abreviado
Bem nesse lugar tão breve
vemos com tanto arrebol
abrasar-se tanto sol
nos epiciclos da neve:
muito a vosso amor se deve,
pois como Sol no nascente
pelo cristal transparente
divinamente ilustrais,
e todo vos abrasais
Nesse cândido Oriente.
Todo neve na brancura,
todo sol, no que brilhais,
como sol nos abrasais,
sendo neve na frescura:
mas tanto o divino apura
no cristal o transparente,
que ali fazendo patente
o quanto estais empenhado,
de fino amor abrasado
Abonais o mais ardente.
Nascem desempenhos tais
desses divinos primores,
que em requintados amores
todo a nós nos dedicais:
mas bem que vos empenhais,
vejo-vos mui bem trajado
nessa gala de encarnado,
que tomastes de Maria,
agora por bizarria
Ostentando o mais nevado.
Emblema de amor mais puro,
enigna de amor mais raro,
que sendo à vista tão claro,
sois também à vista escuro.
Depois de crucificado
vos admirei, bom Senhor,
fino retrato do amor,
quando vos vi retratado:
então de um iluminado
sanguinosamente escuro,
se bem que estou mui seguro
das finezas do Calvário,
vos contemplei no sudário
Emblema de amor mais puro
E suposto o pensamento
se pasma do escuro enigma,
mais o mistério sublima
vendo-vos no Sacramento:
ali meu entendimento
conhecendo-vos tão claro,
melhor esforça o reparo
de que estais tão luzido,
quando melhor comprendido
Enigma de amor mais raro
Que no Sacramento estais
todo, e toda a divindade,
conheço com realidade,
suposto que o disfarçais:
para que vos ocultais
nesse mistério tão raro,
se a maravilha reparo,
penetrando-vos atento,
mais claroao entendimento,
Que sendo à vista tão claro?
Que se de neve coberto
fica o divino admirado,
bem se pode um disfarçado
conhecer melhor ao perto:
porém vós andais tão certo,
e tanto em recatos puro,
que se ver-vos me asseguro
nesse disfarce, em que andais,
inda que patente estais,
Sois também à vista escuro.
Agora que entre candores
a vosso amor dais a palma,
escutai, Senhor, uma alma,
que por vós morre de amores.
Todo amante, e todo digno
vos veio estar neste trono,
prestando ao amor de abono
quilates do ardor mais fino:
porém, Senhor, se contino
abrasado estais de amores,
entre tantos resplandores,
que por fineza ocultais,
vede, que nos abrasais
Agora, que entre candores.
De amor tão qualificado
digo, ó cordeiro bendito,
que vos aclame infinito
tanto espírito elevado:
que eu vos não louvo ajustado,
bem que supra afetos d’alma,
pois meu amor nesta calma,
sendo do vosso vencido,
reconheço, que subido
A vosso amor dais a palma.
Mas por amor tão subido
ouvi, como tenro amante,
este pecador constante,
que se chega arrependido:
seja de vós admitido
o pranto, em que se desalma
para crédito da palma,
que dais a vossos amores,
dos humildes pecadores
Escutai, Senhor, uma alma.
Ouvi desta alma humilhada,
Senhor, um fraco conceito,
e é, que entreis em meu peito
a fazer vossa morada:
achareis de boa entrada
tormentos, ânsias, e dores,
que deram os malfeitores
em toda a vossa paixão,
e vereis um coração,
Que por vós morre de amores.
Escutai vossos efeitos
em grosseiras humildades
que para vós as verdades
têm mais valor, que os conceitos.
Já sei, meu Senhor, que vivo
depois que em meu peito entrastes,
porque logo me deixastes
ardendo em um fogo ativo:
agora tenho motivo
para melhorar conceitos,
quando dos vossos respeitos
palpita meu peito o ardor,
e para ver vosso amor
Escutai vossos efeitos
Mas se o infinito ardor
pode atalhar, quanto diga,
sempre o meu termo periga
nas eloquências de amor:
cale-se a língua melhor
em tantas dificuldades,
vos intenta ponderar,
mil erros lhe haveis de achar
Em grosseiras humildades.
Quem, Senhor, na confissão
andara tão acertado,
que do mais leve pecado
soubera ter contrição:
que de todo o coração
com assaz de realidades
sentira essas propriedades
confessando, o que mandais,
pois sei, que não quereis mais
Que para vós as verdades.
Bem advertido, Senhor,
estou, que sois lince vós,
e que penetrais em nós
os movimentos de amor:
tanto conheceis a dor,
que temos em nossos peitos,
que sendo de amor efeitos
os verdadeiros sinais,
convosco verdades tais
Têm mais valor, que os conceitos.
Exercite os mais subidos,
quem busca humanos agrados,
que sempre são levantados,
os que são de vós ouvidos.
Oh quem tivera empregados
em vós, meu Amor divino,
cuidados, que de contino
se multiplicam cuidados:
fazei, que a vós levantados
se acreditem de luzidos
pensamentos, que abatidos
seguem do mundo os enganos,
e que deixando os humanos,
Exercite os mais subidos.
Quem conquistando, Senhor,
vosso amor, perdera a vida,
porque a dá por bem perdida
quem a perde em vosso amor!
Se eu, terníssimo Pastor,
acudira a vossos brados,
então sim, que os meus cuidados
coroara de alta dita,
já que fino se acredita
Quem busca humanos agrados.
Porque aqueles, que vos amam,
e em tais delícias se enlevam,
o prêmio consigo levam,
e filhos vossos se aclamam:
que como no amor se inflamam,
os que são vossos amados,
sendo já purificados
por filhos do vosso amor,
quem há de negar, Senhor,
Que sempre são levantados?
Quem de contino a bradar
por vós no maior rigor
nas enchentes desse amor
não acha de graça um mar?
quero com ânsias mostrar
a dor, a pena, os gemidos;
pois sendo a vós repetidos,
serão de vós bem lembrados,
que são bem-aventurados
Os que são de vós ouvidos.
Ai Senhor, quem alcançara
um bem tão alto, e divino,
que de meus ais o contino
a tais ouvidos chegara!
Ai meu Deus, quem merecera
trazer-vos tão dentro d’alma,
que abrasado em viva calma
do vosso amor falecera!
Ai Senhor, quem padecera
por vós, e só vos amara!
ai quem por vós desprezara
tanta enganosa ruína,
e vossa graça divina
Ai Senhor, quem alcançara.
Ai quem fora tão ditoso,
que soubera bem amar-vos,
e na ação de conquistar-vos
rejeitara o mais custoso!
quem, Senhor, tão sequioso
todo amante, e todo fino
elevara o seu destino
a beber da fonte clara,
que desta sorte lograra,
Um bem tão alto, e divino.
Quem disposto a padecer
por vós buscara os retiros.
onde com ais, e suspiros
soubera por vós morrer!
quem sabendo comprender
desse vosso amor o fino
se elevara peregrino
por um amor de tal porte,
que me dera a melhor sorte,
Que de meus ais o contino!
Só então fora feliz,
e fora então venturoso,
se conhecera ditoso,
que meus suspiros ouvis:
se minha dor admitis,
ditoso então me chamara;
oh se de uma dor tão rara
ouvísseis um só gernido,
e se um ai enternecido
A tais ouvidos chegara!
Porém justamente espera
cada qual chegar-vos logo,
porque a suspiros de fogo
nunca nos negais esfera.
Esta alma, meu Redentor,
que vos busca peregrina,
por vossa grasa divina
suspira em contlnua dor:
diz, e protesta, Senhor,
que se mil vidas tivera,
todas por vós as perdera,
e não só não se embaraça
no pedir da vossa graça,
Porém justamente espera.
Espera, e não estranheis
o confiar de um preverso,
que pertende já converso,
que a todos, Senhor, salveis:
peço-vos, que nos livreis
desse dilúvio de fogo;
ouvi por todos meu rogo,
inda que vos não compete,
que todos juntos, promete
Cada qual chegar-vos logo.
Porque se abrasado o peito
vosso amor está chamando,
não é muito, que chorando
seja cada qual desfeito:
bem posso formar conceito
desta causa, Senhor, logo,
pois vós ouvistes meu rogo,
e atendeis à minha mágoa,
porque vós venceis com água
Porque a suspiros de fogo.
Arde meu peito em calor,
se bem estou anelando,
quando me estou abrasando
em tanto fogo de amor:
se se realça o ardor,
que um peito amante verbera
quem o favor não espera
de tanto carinho ao rogo,
se a chamas de ativo fogo
Nunca vos negais esfera?
Ai meu bem! ai meu Esposo!
ai Senhor Sacramentado!
que mal pode o disfarçado
ocultar o poderoso.
Ai meu Deus, que já não sei
vendo, que vos ausentais,
dizer, como me deixais
neste abismo, em que fiquei
ai Senhor! e que farei
para alcançar venturoso,
o que por menos ditoso
perdi, ou talvez de indigno:
ai meu Redentor divino!
Ai meu bem! ai meu Esposo
Ai Senhor, que me deixais
nesta dura soledade
morto na realidade,
bem que vivo me vejais:
mistérios de amor guardais,
porque estais inda encerrado
em dar-me a vida empenhado,
e do vosso amor a palma:
ai amante da minha alma!
Ai Senhor Sacramentado!
Se nos disfarces metido
roubar as almas quereis,
que importa, vos disfarceis,
ficando à vista o vestido?
mas de que (já conhecido
pelo vestido encarnado)
vos importa o rebuçado:
pois conhecido o poder,
tanta luz escurecer
Que mal pode o disfarçado.
Diáfano, e transparente
esse cristal puro, e fino
com resguardar o divino
declara o onipotente:
tanto nele permanente
está sempre o majestoso,
que então brilha mais lustroso
pelas veias do cristal,
e oculta instrumento tal
Ocultar o poderoso.
Ai que bem se deixa ver
nessa Hóstia, Rei Supremo,
que quanto é maior o extremo,
tanto é maior o poder.
Cuidei que não permitisse
vosso poder sublimado,
que estando assim disfarçado,
tão claramente vos visse:
mas porque bem arguísse,
qual seja o vosso poder,
breve cheguei a colher
pelo cristal transparente,
o que em vós como acidente
Ai que bem se deixa ver!
Bendito seja, e louvado,
pelo que tem de amoroso,
um Deus, que é tão poderoso,
um Senhor tão sublimado:
deixar de ser exaltado
poder tão grande, não temo,
pois se vê de extremo a extremo,
que a grandeza, que se sabe
cabendo em vós, toda cabe
Nessa Hóstia, Rei Supremo.
Exaltada a Majestade
seja de um Rei tão divino,
e louvada de contino
tão suprema divindade:
porque, Senhor, na verdade
dessas profundezas temo,
quando a razão, Rei Supremo,
responde à minha rudeza
(sobre o subir da grandeza)
Que quanto é maior o extremo.
E colhida a admiração
no Sacramento está visto
quando Pão, ser todo Cristo
quando Cristo, todo Pão
unido na Encarnação
ao divino e humano ser
e sendo imortal morrer
um Deus, que tanto se humilha
sendo grande a maravilha
Tanto é maior o poder
Porque, quem em pão se encerra
Ser divino, e Ser humano,
que muito que soberano
fabricasse o céu, e a terra.
Se no pão vos disfarçais,
por cobrir vossa grandeza,
já do pão na natureza
toda a grandeza expressais.
melhor no pão publicais
o poder a toda a terra,
pasme o mar, e trema a serra,
e reconheça o percito,
que o Pão é Deus infinito;
Porque quem em pão se encerra?
Neste Pão sacramentado,
que dos Anjos é sustento,
têm as almas grande alento
por meio de um só bocado:
perdoa a todo o pecado
por mais torpe, e desumano,
e eu me confesso tirano,
porque me não arrependo
se estou no Pão conhecendo
Ser divino, e ser humano.
Na Ceia se apresentou
o Senhor com realidade,
neste Pão da divindade,
que a todos sacramentou:
se a cada um transformou,
passando a divino o humano
que muito, que o desumano
pecador já convertido
seja aos Anjos preferido?
Que muito, que soberano?
Quem assim o permitiu
com tão alta onipotência,
que o pó da suma indigência
sobre as esferas subiu:
quem este pó preferiu
à luz, que luzes desterra,
que muito a contrária guerra
pacifique aos elementos?
que muito, que a seus intentos
Fabricasse o Céu, e a terra?
Que muito, que vivo alento
desse a um barro insensível
um Deus, que lhe foi possível
dar-se a si mesmo em sustento.
De um barro frágil, e vil,
Senhor, o homem formastes,
cuja obra exagerastes
por engenhosa, e sutil:
graças vos dou mil a mil,
pois em conhecido aumento
tem meu ser o fundamento
na razão, em que se estriba,
se lhe infundis alma viva,
Que muito, que vivo alento.
Depois de feita a escultura,
e por um Deus acabada,
obra não houve extremada
como a humana criatura:
ali para mais ventura
(sendo o barro assaz terrível)
alma lhe deu infalível,
e me admira ver, que aquela
alma, que ali fez tão bela
Desse a um barro insensível.
Possível lhe foi fazer
este Arquiteto divino
participando do Trino
aquela alma a seu prazer:
para mais se engrandecer
engrandeceu o insensível,
desatando-se passível
daquele sagrado nó,
que apertava três, e só
Um Deus, que lhe foi possível.
Foi grandeza do poder
aquele querer mostrar
sendo divino encarnar
para humano vir nascer:
e foi grandeza o morrer
um Deus, que é todo portento;
e se bem no Sacramento
se adverte grande fineza,
de seu poder foi grandeza
Dar-se a si mesmo em sustento.
Ó divina Onipotência!
Ó divina Majestade!
que sendo Deus na verdade
sois também Pão na aparência.
Já requintada a fineza
Nesse Pão sacramentado
temos, Senhor, ponderado
vossa inaudita grandeza:
mas o que apura a pureza
da vossa magnificência
é, quererdes, que uma ausência
não padeça, quem deixais,
pois que partindo ficais,
Ó divina Onipotência.
Permiti por vossa cruz,
por vossa morte, e paixão,
que entrem no meu coração
os raios da vossa luz:
clementíssimo Jesus
sol de imensa claridade,
sem vós a mesma verdade,
com que vos amo, periga;
guiai-me, porque vos siga,
Ó divina Majestade.
Na verdade esclarecida
do vosso trono celeste
toda a potência terrestre
de comprender-vos duvida:
porém na forma rendida
de um cordeiro a Majestade
aos olhos da humanidade
melhor a potência informa,
sendo cordeiro na forma,
Que sendo Deus na verdade.
Cá neste trono de neve,
onde humanado vos vejo,
melhor aspira o desejo,
melhor a vista se atreve:
aqui sabe, o que vos deve
(vencendo a maior ciência)
amor, cuja alta potência
adverte nesse distrito,
que sendo Deus infinito,
Sois também Pão na aparência.
Ó Soberana Comida!
Ó maravilha excelente!
pois em vós é acidente,
o que em mim eterna vida.
À mesa do Sacramento
cheguei, e vendo a grandeza
admirei tanta beleza,
dei graças de tal portento:
com santo conhecimento
só então folguci ter vida,
pois vendo-a convosco unida
na flama de tanta calma
disse (recebendo-a n’alma)
Ó Soberana Comida!
Naquela mesa admirando
anda a graça tanto a rodo,
que dando-se a todos, todo
vos estais comunicando:
e de tal modo exaltando
vosso ser onipotente,
que quando estais tão patente
nessa nevada pastilha,
vos louvam por maravilha,
Ó maravilha excelente!
Como num excelso trono
realmente verdadeiro,
na Hóstia estais todo inteiro,
Senhor, por maior abono:
se por ser das almas dono
vos empenhais tão patente,
hei de apelidar contente
com a voz ao céu subida,
que esse Pão me seja vida,
Pois em vós é acidente.
Neste excesso do poder
só podia o majestoso
obrar ali de amoroso,
o que chegou a emprender:
eu, que venho a merecer
lograr a Deus por comida,
tenho por cousa sabida
neste excesso do Senhor
serem delíquios do amor,
O que em mim eterna vida.
Ó poder sempre infinito,
que o céu admira suspenso,
pois se encerra um Deus imenso
em tão pequeno distrito.
Três vezes grande, Senhor,
o mesmo céu nos publica,
e este louvor multiplica
com repetido clamor:
não cessa o santo louvor,
porque não cessando o grito
de tanto elevado esprito,
isso mesmo é propriedade,
que defende a majestade
O poder sempre infinito.
Quem chegar a compreender
essa grande imensidade,
há de pasmar na verdade
reconhecido o poder:
porém eu hei de dizer,
que nesse globo in extenso
vejo aquele sol imenso,
que tantos pasmos conduz,
vejo aquela imensa luz,
que o Céu admira suspenso.
Tal a meus olhos exposto
vos vejo no Sacramento.
que supre esse entendimento
os delírios do meu gosto:
porém se encobris o rosto,
já desanimo suspenso,
e vós sabeis por extenso
da águia, que se vos aplica,
qual se desmaia, e qual fica,
Pois se encerra um Deus imenso.
Quando em partes dividido
vos creio nas partes todo,
e vos vejo em raro modo
todo nas partes unido:
e de empenho tão subido
a inteligência repito,
pois me informa o infinito,
que estar pode na verdade
do Céu toda a majestade
Em tão pequeno distrito.
Com razão, divina neve,
a vós se prostram coroas,
pois inclue três pessoas
a partícula mais breve.
Sol de justiça divino
sois, Amor onipotente,
porque estais continuamente
no luzimento mais fino:
porém, Senhor, se o contino
resplandecer se vos deve,
fazendo um reparo breve
desse sol no luzimento,
sois sol, mas no Sacramento
Com razão divina neve.
Só em vós, meu Redentor,
tanta grandeza se encerra:
porque dos céus, e da terra
sois absoluto Senhor:
da terra o poder maior
um tempo em ardentes loas
humilharam três pessoas,
prostrando-se ao vosso pé
bem advertidos, de que
A vós se prostram coroas.
Mas porém se o disfarçado
não diminui o valor,
como ocupais, meu Senhor,
um lugar tão limitado?
de maior porém penhado
nos dais advertências boas;
mas convencendo as coroas,
mostrais ao peito arrogante
que esse lugar é bastante,
Pois inclue três pessoas.
A maravilha maior,
que causa o vosso portento,
é, que estais no Sacramento
todo em partes por amor:
porém se o maior valor
ao mais humilde se deve,
e so quem menos se atreve,
esse voz goza, e vos prende,
com razão vos compreende
A partícula mais breve.
Ora quereis doce Esposo,
quereis, luz dos meus sentidos,
que fiquemos sempre unidos
em um vínculo amoroso?
Agora, Senhor, espero,
que consintais, no que digo;
quereis vós ficar comigo,
que eu partir convosco quero?
que o permitais considero
fazendo-me a mim ditoso,
pois vos prezais de amoroso:
já quero as entranhas dar-vos,
e vede se assim tratar-vos,
Ora quereis, doce Esposo.
Já, Senhor, seguir-vos posso,
pois vosso amor me rendeu,
ser todo vosso, e não meu,
nada meu, e todo vosso:
permiti como Pai nosso,
não andemos divididos,
mas antes que muito unidos
estejamos entre nós,
porque eu já quero, o que vós
Quereis, luz dos meus sentidos.
Façamos, Senhor, um laço
entre nós tão apertado,
que de vós mais apartado
não possa mudar um passo:
porque com este embaraço
andemos tão prevenidos,
que não ousem meus sentidos
sair de vossos cuidados,
e de tal sorte ajustados,
Que fiquemos sempre unidos.
Seja pois este querer-nos
de tal sorte requintado,
que fique todo admirado,
quem assim chegar a ver-nos:
onde possa conhecer-nos
o mundo de curioso
me inveje pelo ditoso,
vendo, que comigo amante
vos ajustais mui constante
em um vínculo amoroso
Levantai minha humildade
humilhai vossa grandeza,
porque em vós seja fineza,
o que em mim felicidade.
Não é minha voz ousada
a pedir-vos mas prossigo,
que quoirais estar comigo,
inda que, Senhor, sou nada:
e se minha alma ilustrada
quereis, que fique em verdade,
pois que sem dificuldade
me podeis engrandecer,
ao auge do vosso ser
Levantai minha humildade.
Tenho, Senhor, no sentido
para duvidar de ousado,
que mal pode o desairado
pertender o esclarecido:
de minhas culpas tolhido
na abominável torpeza,
vendo em vós tanta beleza,
mal posso, Senhor, chegar-vos,
e para poder lograr-vos
Humilhai vossa grandeza.
Fazei por mim, meu Senhor,
tudo quanto possa ser,
e pois tendes tal poder
me podeis dar vosso amor:
uni o vosso valor
com a minha singeleza,
e fique a vossa grandeza
unida, Senhor, comigo;
fazei isto, que vos digo,
Porque em vós seja fineza.
Vosso corpo por inteiro
introduzi no meu peito,
porque assim ficarei feito
um sacrário verdadeiro:
ostentai, manso cordeiro,
com a minha indignidade
vossa grande Majestade,
suposto que o não mereça,
porque traça em vós pareça
O que em mim felicidade.
Uni meu sujeito indigno
a esse objeto soberano,
fareis do divino humano,
fareis do humano divino.
Mostrai, Senhor, a grandeza
de tão imenso poder,
unindo este baixo ser
a tão suprema beleza:
uni, Senhor, com firmeza
a este barro nada fino
o vosso ser tão divino,
ligai-vos comigo amante,
convosco em laço constante
Uni meu sujeito indigno.
Fazei, Senhor, com que fique
desta união tal memória,
que tão peregrina história
a vosso amor se dedique:
justo será, que publique
em seu pergaminho lhano
vossa glória o peito humano,
e que o mundo suspendido
vejo um pecador unido
A esse objeto soberano.
Como da vossa grandeza
não há mais onde subir,
será realce o vestir
as túnicas da vileza:
muito o vosso amor se preza
de abater o soberano;
serei eu o Publicano
indigno do vosso amor:
vinde a meu peito, Senhor,
Fareis do divino humano.
Fareis humanado em mim
créditos à divindade,
porque o vosso incêndio há de
transformar-me em serafim:
fareis deste barro enfim
frágua de incêndio mais digno,
fareis do grosseiro o fino,
que isso é glória do saber
e por timbre do poder
Fareis do humano divino.
Ai quem tal bem merecera!
que de vós não se apartara!
ai quem melhor vos amara!
ai quem só em vós vivera!
Ai quem bem considerara
na glória só de vos ver,
que abrasado em seu querer
salamandra vos buscara!
ai quem tanto vos amara,
que tudo por vós perdera!
ai quem por vós padecera!
ai quem já pudera ver-vos!
ai quem soubera queter-vos!
Ai quem tal bem merecera!
Quem bem convosco se unira,
meu Senhor, e por tal arte,
que juntos em qualquer parte
um, e outro amor se vira!
quem tanto bem conseguira,
e quem tanto vos amara,
que um instante não deixara
de assistir-vos cuidadoso!
e quem fora tão ditoso
Que de vós não se apartara!
Ai quem soubera adorar-vos
de tal sorte, meu Senhor,
que deixara o próprio amor
nas pertendências de amar-vos!
quem, a alma querendo dar-vos,
o coração não deixara,
que desse modo lograra
a glória, Senhor, de ver-vos!
ai quem soubera querer-vos!
Ai quem melhor vos amara!
Quem morto se imaginara
nas glórias da humana vida!
vida em bonanças perdida,
vida, que a morte prepara:
ai quem tão só vos buscara,
que para o mundo morrera!
quem por ganhar-vos perdera
todas as glórias do mundo!
ai quem morrera ao imundo!
Ai quem só em vós vivera!
Ai quem soubera querer-vos!
ai quem soubera agradar-vos!
ai quem soubera explicar-vos!
quanto anela o bem de ver-vos.
Quem fora tão fino amante,
que mostrara a seu objeto
bem nas entranhas do afeto
prendas do amor palpitante:
quem nessa pira flamante
purificara o temer-vos!
ai quem temera ofender-vos
só por amor de agradar-vos!
ai quem soubera pagar-vos!
Ai quem soubera querer-vos!
Quem submergido na pena
prantos a mares vertera,
que outro Pedro parecera,
ou qual outra Madalena!
mas se contudo é pequena
para em justiça obrigar-vos
ai quem no rumo de amar-vos,
que de outro amor me desterra,
fora cos olhos na terra!
Ai quem soubera agradar-vos!
Se a vossa divina mão,
amantíssimo Pai nosso,
(como a de Tomé o vosso)
palpara o meu coração:
ai que delícias então
sentira a razão de amar-vos!
ai quem pudera mostrar-vos
o fino do meu amor!
e as circunstâncias da dor
Ai quem soubera explicar-vos!
Entrai, Senhor, no meu peito,
onde ao ver-vos retratado
causa sereis, meu amado,
inseparável do efeito:
entrai, que sois bem aceito,
pelo que sei já querer-vos,
e se dentro chego a ter-vos
desta minha indignidade
haveis de ver na verdade,
Quanto anela o bem de ver-vos.
Mas se sois lince divino,
que o mais oculto estais vendo:
se estais, luz minha, sabendo
o mesmo, que eu imagino.
Bem sei, meu amado objeto,
fazendo um breve conceito,
que penetrais do meu peito
o mais oculto, e secreto:
bem vê meu constante afeto
da vossa potência o fino,
porque neste vidro indigno
raiando desse Oriente,
se sois sol, não só persente,
Mas se sois lince divino.
Deixo à parte haver gerado
vosso justo entendimento
os astros, o firmamento,
e todo o demais criado:
e fico como elevado
no poder, a que me rendo,
admirando: porém vendo
vossa grandeza, e poder,
quando chego a comprender,
Que o mais oculto estais vendo.
Quando isento o pensamento
de toda a minha maldade,
vós lá dessa imensidade
vedes também meu intento:
se um oculto movimento
patente, e claro estais vendo,
fico por fé conhecendo
desse poder penetrante,
que não obsta estar distante,
Se estais, luz minha, sabendo.
E posto encubrais o rosto
no acidental Sacramento,
mui bem vedes meu intento,
pois a tudo estais exposto:
muda a língua, e fixo o gosto
em vós, meu lince divino,
já reconheço, que o fino
deste arnor penetrareis,
porque, Senhor, bem sabeis
O mesmo, que eu imagino.
Que importa, que meus cuidados
não sejam bem referidos,
se para serem sabidos
não dependem de explicados.
Se todo a vós me dedico,
quando todo a mim vos dais,
porque vós em mim ficais,
eu também em vós me fico:
vosso querer justifico,
tendo em vós assegurados
afetos tão requintados;
e se amor é compaixão,
a culpa, meu coração,
que importa? que? meus cuidados.
Deus amado, e Deus amante,
oh quem trouxera ajustados
seus amorosos cuidados,
que sem vós nem um instante!
mas pois que o mundo inconstante
perturba amantes sentidos,
valham ardentes gemidos
de afetos interiores
pelo instante, em que os amores
não sejam bem referidos.
Fazei, que eu logre a vitória
de uns atrevidos cuidados,
que quando quero explicados
perturbam minha memória:
oh se me alcançara a glória
de ter estes atrevidos
na confissão oprimidos,
onde não posso explicar,
se os conduzo a castigar,
Se para serem sabidos.
Sempre nesta explicação
de meus cuidados secretos
quero mostrar uns afetos
de anelante coração:
vaidosa demonstração
de amores mal informados
que repetir meus cuidados
é nescedade de amor,
quando convosco, Senhor,
Não dependem de explicados.
Assim pois vós sabeis tudo
ó diviníssimo objeto,
valha-se só meu afeto
de estilo, que fala mudo.
Nada, meu Senhor, vos digo,
nada quisera dizer-vos,
porque os atos de querer-vos,
têm pelas vozes perigo:
tanto, Senhor, que comigo
hei de acabar de ser mudo,
e de tal maneira rudo,
que quando me perguntares
responderei (se escutares)
Assim, pois vós sabeis tudo.
Porém calar-me não quero,
quero convosco explicar-me,
vede, se quereis levar-me,
onde louvar-vos espero:
porque se bem considero
distante o golpe secreto,
levando-me vós o afeto,
de que servem meus sentidos
prostrados, e desunidos,
Ó diviníssimo objeto
Convosco meu ser se abraça,
e não pareçam delírios
procurar cândidos lírios
da vossa divina graça:
pois neles a alma se enlaça,
e convosco, amado objeto,
diz, que quer ir em secreto
purificar seu valor:
aqui do vosso favor
Valha-se só meu afeto.
Finalmente os meus cuidados
ordenai, Amor, de sorte,
que aos círculos de seu norte
correspondam empenhados:
meus sentidos desvelados
com excesso sobreagudo
vos venerem mais que tudo
em finíssimos extremos:
porém, meu Senhor, mudemos
De estilo, que fala mudo.