Sombra adorada
Sempre a recordação daquela morta!
Sempre esta dor e sempre esta saudade
Que um dia pela minha mocidade
Um féretro deixou, passando à porta.
Para que havia de morrer tão cedo
Aquela que os meus beijos aqueceram,
E para sempre eles também morreram
Como o luar por entre um arvoredo.
Oh! antes como as monjas, ao exílio
Ela entregasse o corpo alabastrino
Do que extinguir a vida como um hino,
Depois de tanto amor e sacrifício.
Oh! antes nunca eu lhe notasse o rosto,
Nem a treva vital dos seus cabelos,
Que não teria agora de assim vê-los
Hirtos, gelados para meu desgosto.
Era a mais infeliz das criaturas
Essa que amei com todos os carinhos!
Nasceu, viveu só através de espinhos,
No desespero atroz das amarguras.
Mas, afinal os pobres infelizes
Que mais sabor podem gozar no mundo
Senão o de sentir no chão profundo
As convulsivas, trêmulas raízes!
Ah! corações ideais dos gondoreiros,
Canções de amor, suavíssimas baladas,
Falai-me das saudades afastadas
Dos amantes que vivem forasteiros.
Barcarolas do além, canções dos mares,
Voando como límpidas gaivotas
Para longínquas amplidões remotas,
Falai, dizei-me o que é que são pesares.
Vede como estas mágoas dilaceram,
Rasgam d’espadas todo o nosso peito,
Leito sombrio, devastado leito
Onde os sonhos de amor todos se geram.
Os colibris, todas as aves, tudo
Que voa para longe dos espaços,
Ah! quantos beijos soltos, oh! que abraços
Tão frios já no esquecimento mudo.
Que dor que devem ter os próprios astros
Perdidos pelo tédio das esferas...
Quanto pranto terão as primaveras...
Que saudades de outro porto os mastros!
Quanto mais eu que a dor me punge e corta,
Que saudade tamanha, ah! que saudade
Terei da minha triste mocidade
Que foi contigo, desgraçada morta!