Sombra adorada

By João da Cruz e Sousa

Sempre a recordação daquela morta!

Sempre esta dor e sempre esta saudade

Que um dia pela minha mocidade

Um féretro deixou, passando à porta.

Para que havia de morrer tão cedo

Aquela que os meus beijos aqueceram,

E para sempre eles também morreram

Como o luar por entre um arvoredo.

Oh! antes como as monjas, ao exílio

Ela entregasse o corpo alabastrino

Do que extinguir a vida como um hino,

Depois de tanto amor e sacrifício.

Oh! antes nunca eu lhe notasse o rosto,

Nem a treva vital dos seus cabelos,

Que não teria agora de assim vê-los

Hirtos, gelados para meu desgosto.

Era a mais infeliz das criaturas

Essa que amei com todos os carinhos!

Nasceu, viveu só através de espinhos,

No desespero atroz das amarguras.

Mas, afinal os pobres infelizes

Que mais sabor podem gozar no mundo

Senão o de sentir no chão profundo

As convulsivas, trêmulas raízes!

Ah! corações ideais dos gondoreiros,

Canções de amor, suavíssimas baladas,

Falai-me das saudades afastadas

Dos amantes que vivem forasteiros.

Barcarolas do além, canções dos mares,

Voando como límpidas gaivotas

Para longínquas amplidões remotas,

Falai, dizei-me o que é que são pesares.

Vede como estas mágoas dilaceram,

Rasgam d’espadas todo o nosso peito,

Leito sombrio, devastado leito

Onde os sonhos de amor todos se geram.

Os colibris, todas as aves, tudo

Que voa para longe dos espaços,

Ah! quantos beijos soltos, oh! que abraços

Tão frios já no esquecimento mudo.

Que dor que devem ter os próprios astros

Perdidos pelo tédio das esferas...

Quanto pranto terão as primaveras...

Que saudades de outro porto os mastros!

Quanto mais eu que a dor me punge e corta,

Que saudade tamanha, ah! que saudade

Terei da minha triste mocidade

Que foi contigo, desgraçada morta!