Sonâmbulas III – Nostalgia... ideal!
Ó alaúde hebraico! ó citara divina!
Eu tenho o coração a transbordar de amor...
Case-se a minha voz à oriental surdina
Que vê Tritões na espuma e Dríades na flor!
Ó minha fantasia! ó desvairada cega,
Que vagas — nua e só — por plaga solitária...
O que procuras tu? — a formosura grega,
Premiada em Esparta, em Lesbos... a estatuária?...
A Grécia! a Grécia! a Grécia!... O berço dos poetas,
Dos deuses, dos heróis, da plástica e da ideia...
Onde as Ninfas, Cupido e as Cícladas diletas
Banhavam-se, ao luar, à flor da onda egeia!...
A Grécia! sempre a Grécia!... Aonde, à luz poente,
Sentava-se o Nestor da choça ao limiar...
E revivia assim extraordinariamente,
Qual tísico que sorve as virações do mar.
A terra das paixões, dos sentimentos caros;
Onde Homero nasceu, à margem do Melés...
Lá — onde o escopro cai no mármore de Paros,
E cai Pigmaleão — de Galateia aos pés!...
Que importa que do norte as plagas vis, estranhas,
Mostrem steppes só, por sob um céu vazio,
Se ela tem ao Levante as nuvens, as montanhas,
E Nereides no mar... e Náiades no rio?!...
A Grécia! sempre a Grécia!... É lá que o estrangeiro
É mais do que um amigo: um deus em forma humana;
E encontra sempre aberto um lar hospitaleiro,
Uma benção de ancião e um beijo de lesbiana!...
Eu quero, como o Lord errante e peregrino,
Que imaginou Manfredo, Haydéa e D. Juan,
Deixar o meu país, seguir o meu destino...
Morrer — no seio nu da sensual pagã!
A Grécia é um condor, que adeja no horizonte
Dos mundos ideais — com asas de fuzis!...
Canta... e a gente escuta a voz de Anacreonte!
Surge... e a gente vê prodígios de Zeuxis!...
Eu quero consagrar de minha lira os trenos
Ao braço dos heróis e ao crânio dos poetas!
Assistir a um festim de Júpiter, ou Vênus,
Fazer um brinde a Apolo... e rir-me dos ascetas!...
Tenho uma compleição nevrálgica e franzina,
Sujeita às impressões da mais ligeira ideia:
Se hei de sentir o amor de Otelo, que assassina...
Quero sentir o amor de Mirra ou de Medeia!...
Vivo a sonhar contigo, ó pátria dos poetas,
Dos deuses, dos heróis, da plástica e da ideia...
Vejo as Ninfas, o Amor e as Cícladas diletas
Banhando-se, ao luar, à flor da onda egeia!...