Sonâmbulas IV – Amar

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

Amar aos vinte e dois anos

E ser poeta, mulher,

É um desvendar de arcanos

Que os não desvenda qualquer!...

É um desliar de bagas

De um colar feito de chagas

Abertas no coração...

Um fulgir de vagalumes,

Com tantos brilhos, tais lumes,

Que nos deslumbra a razão!...

Assim, em louca cegueira,

N’essa voragem fatal,

Noss’alma vai de carreira

Bater às portas do mal...

E como a leve falena

Queimando as asas sem pena

Em derredor de uma luz,

Em busca de primaveras,

Vai, tropeçando em quimeras,

Cair nos braços da cruz...

Amar — é viver, sozinho,

Tendo alguém perto de si;

Ser pombo, fazer o ninho:

E a rolinha sempre ali!...

É um nunca fechar de braços,

Que se trocam em abraços

Que estreitam dois corações;

Um turbilhão de desejos

Que se desmancham em beijos...

E passam como ilusões!...

Amar — é fechar os olhos

E ver-se o que não se vê...

É caminhar entre abrolhos,

Colhendo grinaldas!... e...

Depois... não sei; mas, eu penso

Que a gente fica suspenso

Por asas de um querubim!

E vai voando... voando...

Por entre estrelas passando...

N’aquelas plagas sem fim!

Amar — assim como eu amo

É um delírio talvez!

Uma loucura não chamo,

Pois louco não sou, bem vês;

Mas... há por força um mistério

N’esse não sei quê de etéreo

Que não sei d’onde há de vir...

Umas atrações de abismo,

Uns fluidos, um magnetismo

Que sentimos... sem sentir!...