Sonâmbulas XI – A luva I
No Jardim dos Leões, diz Schiller que se achava
A corte reunida em massa, e esperava
Que o rei Francisco desse algum sinal co’a mão,
Para surgir na arena o rugidor leão.
Em derredor do circo estavam agrupados
Padres e cortesãs, duquesas e soldados,
Misturavam-se aí as sedas dos vestidos
Das deusas do bom tom, co’os paletós compridos
Dos dandys de luneta e luvas de pelica,
Romeus... que andam atrás de Julieta — rica.
O rei dá o sinal: range o portão de ferro,
Tremem todos ouvindo um horroroso berro,
E surge n’esse instante, a passo firme e lento,
O rei dos animais: a juba solta ao vento,
O olhar a desprender lampejos inflamados,
Garboso, a caminhar d’um para os outros lados,
Relanceia o olhar por sobre o povo inteiro
E estende os membros seus no centro do terreiro.
Novo sinal do rei faz outra porta abrir-se:
E um rugido maior que o outro deixa ouvir-se...
Aparece na arena um tigre, n’esse instante
Raivoso como um rei!... Bramido horripilante
Solta o leão, torcendo a cauda, a contemplá-lo
Com um olhar talvez capaz de atravessá-lo...
Atroa rudemente os ares!... E de novo
Descansa o corpo enorme, olhando para o povo.
Ao terceiro sinal novos portões se abriram
E então de seus covis horríficos saíram
Dois leopardos mais, que investem destemidos
Para o tigre — que assesta as garras... Aos rugidos
Que desprende o leão, n’esse momento a erguer-se,
Fitam-se os animais!... Era horrível de ver-se:
Arrojam-se ao leão o tigre e os leopardos!
Vigorosos, cruéis, terríveis e galhardos,
Estrangulam-se os bons guerreiros sem espada:
A lutar e a rolar na arena ensanguentada!...