Sonâmbulas XI – A luva I

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

No Jardim dos Leões, diz Schiller que se achava

A corte reunida em massa, e esperava

Que o rei Francisco desse algum sinal co’a mão,

Para surgir na arena o rugidor leão.

Em derredor do circo estavam agrupados

Padres e cortesãs, duquesas e soldados,

Misturavam-se aí as sedas dos vestidos

Das deusas do bom tom, co’os paletós compridos

Dos dandys de luneta e luvas de pelica,

Romeus... que andam atrás de Julieta — rica.

O rei dá o sinal: range o portão de ferro,

Tremem todos ouvindo um horroroso berro,

E surge n’esse instante, a passo firme e lento,

O rei dos animais: a juba solta ao vento,

O olhar a desprender lampejos inflamados,

Garboso, a caminhar d’um para os outros lados,

Relanceia o olhar por sobre o povo inteiro

E estende os membros seus no centro do terreiro.

Novo sinal do rei faz outra porta abrir-se:

E um rugido maior que o outro deixa ouvir-se...

Aparece na arena um tigre, n’esse instante

Raivoso como um rei!... Bramido horripilante

Solta o leão, torcendo a cauda, a contemplá-lo

Com um olhar talvez capaz de atravessá-lo...

Atroa rudemente os ares!... E de novo

Descansa o corpo enorme, olhando para o povo.

Ao terceiro sinal novos portões se abriram

E então de seus covis horríficos saíram

Dois leopardos mais, que investem destemidos

Para o tigre — que assesta as garras... Aos rugidos

Que desprende o leão, n’esse momento a erguer-se,

Fitam-se os animais!... Era horrível de ver-se:

Arrojam-se ao leão o tigre e os leopardos!

Vigorosos, cruéis, terríveis e galhardos,

Estrangulam-se os bons guerreiros sem espada:

A lutar e a rolar na arena ensanguentada!...