Sonâmbulas XIII – A Lídio
Peregrinos na senda do mistério,
Vamos todos rolar no pó funéreo
Dos frios mausoléus...
Não pode a frágil mão da humanidade
Arcanos desvendar da eternidade,
Erguer tão densos véus.
Há leis fatais, impostas pela sorte,
Que nos condenam à mudez da morte,
À sombra d’uma cruz.
Os dias passam, como as horas correm,
Murcham as flores, como as crenças morrem,
Como se extingue a luz!...
O riso de Voltaire queimou-me os lábios!
Tenho a tristeza glacial dos sábios...
Um ermo dentro em mim!...
Contemplo a natureza, mudo e triste,
Porque vejo que tudo quanto existe
Um dia há de ter fim.
Tudo há de se acabar!... As sepulturas,
Abertas para o céu, frias, escuras,
Esperam os mortais:
De tanta aspiração que a mente inflama,
Ficam somente os ossos sobre a lama...
Ossos — e nada mais!...
É bem triste morrer!... Mais triste ainda
É ver a esposa, carinhosa e linda,
Na aurora do viver,
Fechar os olhos para a luz da vida,
Dizer, chorando, o adeus da despedida...
Partir p’ra não volver!...
Muito cedo apagou-se, meu amigo,
Na sombra lutulenta do jazigo,
A luz dos dias teus...
Muito cedo no chão de um cemitério,
Teu amor transformou-se n’um mistério,
N’um segredo de Deus!...
Não há consolo para dores d’estas;
Se a sociedade no vai-vem das festas,
Insulta a nossa dor...
No seio dos amigos inda achamos
Almas irmãs, que choram, se choramos,
Amor p’ra o nosso amor!...
Mas, se dá lenitivo ao sofrimento
O pranto de um sincero sentimento,
Que em rosto alheio cai,
Eu aperto-te a mão — e sabe agora
Que, quem a tua dor lamenta e chora:
Já não tem mãe nem pai!...