Sonâmbulas XIV – Páginas de um cético

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

Quereis mesmo, Senhora, ler a história

Da minha vida, que se extingue aos poucos?...

Pois bem; vou descrevê-la de memória,

Na febre intensa dos assomos loucos.

Há n’estas folhas a legenda inglória

De muitos gritos abafados, roucos,

Arrancados do íntimo do seio

Nas contrações febris d’um longo anseio.

Perdão, se vou ferir vossos ouvidos

Com frases loucas de linguagem rude,

Perdão — se aos vossos olhos, embebidos

Nos deslumbrantes prismas da virtude,

Vou levantar uns anjos decaídos

N’um antro — inda pior que o ataúde:

Falo da saturnal — o cemitério,

Onde a taça é a cruz, o mais... mistério!...

Transpus, sorrindo, o limiar da vida,

Como o noivo feliz, que aos vinte anos

Na alcova nupcial, fresca e florida,

Penetra — cheio de sutis enganos!...

Uma esperança vaga, indefinida,

Tentava erguer o véu de mil arcanos...

Pareciam-me, aos raios das estrelas,

Irmãos os homens, anjos as donzelas!

E cantei!... É que eu tinha dentro d’alma

O dom fatal dos mártires sombrios,

Que procuram colher da glória a palma

E vão cair nos túmulos vazios...

A febre de aspirar, que não se acalma,

Bem cedo me arroxou os lábios frios!

Foi o canto do cisne... a voz da morte:

O agourento uivar do cão da sorte!

Senti que no meu peito havia um ermo,

— Povoado somente de desejos... —

Temi chegar d’esta existência ao termo,

Sem ter libado o doce mel dos beijos!

Nos meus delírios — sonhador enfermo —

Louco ideal me despertava almejos

De unir um dia ao palpitante peito

Mimoso corpo virginal, perfeito!...

E amei, com ânsia, com delírio intenso,

Uns lábios róseos que p’ra mim sorriram...

Meus pensamentos, como um leve incenso,

Para alcançai-os — para o céu subiram!...

É que eu amava com afeto imenso!

Mas... esses lábios, a sorrir — mentiram!...

— E a ironia sarcástica de um riso

É um inferno — por trás d’um paraíso!....

Então... Senhora! abandonado e triste,

Lancei-me a sós por este mundo enorme...

Sombrio e mudo, como um velho antiste,

Ao coração debalde disse: — Dorme.

A débil flor, que às virações resiste,

Jamais resiste à tempestade informe:

O amor — é um lírio, no jardim de um peito,

E uma traição — é um temporal desfeito!...

Como na areia que o simoun levanta,

Nos vastos plainos do Saara ardente,

Ave nenhuma apaixonada canta,

Nem desabrocha uma só flor olente;

Assim na alma que a paixão quebranta,

Gelada, estéril, sem rumor, silente,

— Como lâmpada em templo abandonado

Bruxuleia a lembrança do passado!...