SOU TÃO JUSTO QUANTO É BELA A NINFA, QUE ME ENFEITIÇA, O AMOR QUE EU SINTO POR E...

By Nicolau Tolentino de Almeida

No rosto de Jônia estão.

Quantos dons das graças vem,

Mas que importa? se não tem

Como o rosto o coração:

Milhões de suspiros vão

Revoar em torno d’ela.

Mas, se os que morrem por ela

Vejo de irrisão servir-lhe,

Em amá-la e em fugir-lhe

Sou tão justo quanto é bela.

Imperfeita natureza.

Se queres poupar-nos dores.

Ou dá corações melhores,

Ou não dês tanta beleza:

O alto dom da gentileza

Reparte com mais justiça,

Fizeste ao mundo injustiça,

Em criar com mão raivosa.

Tão cruel e tão formosa

A ninfa, que me enfeitiça.

Nunca se erguem sem matar

Os “eus olhos vencedores.

Quer ter mil adoradores

Para ter que desprezar:

Já sei o que é suspirar,

Fui aprender aos pés d’ela,

Tão tirana como bela.

Por ter de zombar mil modos,

Gosta de atear em todos

O amor que eu sinto por ela.

Mas eu que d’esta paixão

Me contento c’os grilhões,

Adoro-lhe as perfeições,

Não lhe peço o coração:

Se a sua adorável mão

Diversos fogos atiça.

Nem murmuro da injustiça,

“Nem apago a chama ardente,

Que este amor independente

Não é obsequio, é justiça.