SUSPIROS E SAUDADES

By Laurindo José da Silva Rabelo

Depois de tantas perdas só restou-me

Na soledade,

Em que deixou-me a dor, para consolo

Roxa saudade.

Esta flor, tão estéril nos prazeres,

Quando em retiro

Quase sempre do seio magoado

Brota um suspiro.

Achava estes suspiros e saudades

Encantadores,

Embora fossem flores da tristeza,

Sempre eram flores.

Demais, quem tem das ditas deste mundo

Chegado ao termo,

Quem traz de ingratidões e desenganos

O peito enfermo;

Quem tem com a flor que às almas venturosas

Do prazer fala?

Que ao ver-lhe o coração trajando luto

Traja de gala?

A tristeza que tendes, minhas flores,

É vosso encanto.

E como éreis formosas orvalhadas

Pelo meu pranto!

Mas secastes também?! Faltou-vos água?

Demais tivestes.

Fogo? Desde nascidas sempre em chamas

De amor vivestes.

Secastes? Com razão, que destas flores

Certo não é

Verdadeiro alimento, água nem fogo

Faltando a fé.

Vivem com fogo e água, se dos prados

Nascem no chão;

Mas não se flores d’alma dentro d’alma

Nascendo vão.

Quando morta a f’licidade,

A fé expira também!

Saudades de que se nutrem?

Os suspiros que alvo têm?

Morta a fé, vai-se a esperança,

Como pois viver pudera

Saudade que não tem crença,

Saudade que desespera?

Onde as graças do passado,

Se altivo gênio sanhudo

O cepticismo nos brada,

Foi mentira, engano tudo?

Em nada creio do mundo:

Ludíbrio da desventura

A f’licidade me acena,

Só de um ponto — a sepultura.

Morreram minhas saudades,

E meus suspiros calados

Dentro d’alma pouco a pouco

Vão morrendo sufocados.