TÂNTALO
Plenilúnio. As estrelas buliçosas
Cintilam docemente, docemente...
Entre perfumes de esfolhadas rosas,
A bacanal estruge em febre ardente.
Ancilas gregas, moças da Sicília
Tangem harpas e cítaras doiradas,
Sonorizando a orgiática vigília
Com notas suavemente aveludadas.
Efebos cantam, fâmulos vozeiam
Em derredor da turma de convivas,
E, na celeuma lúbrica, pompeiam
A robustez das raças primitivas.
As hetairas doudas, titubeantes,
Erguem ritons de bronze de Corinto.
Entre confusos gritos luxuriantes
Molhando os seios nus de vinho tinto.
Negros enormes da Numídia tocam
Os tamboris. A música arrebata!
Mulheres, tontas de volúpia, chocam
Os estrídulos tímpanos de prata...
Tintinabulam campainhas de ouro.
Formosa Frígia loira como Diana
Fere uma lira de macio choro
— Mimo de cara tartaruga indiana.
Lauta mesa de raras iguarias
Posta ao luar. É um veio cada vaso.
Vem-se pavões da Média, ostras, enguias,
Faisões do Egito, pássaros de Phaso,
Figos de Chelidônia, uvas de Atenas,
Petunclos de Metima, ameixas sírias,
Tâmaras novas da Thebaida. Plenas
De vinho, as taças deitam línguas tírias.
Espumejam os ciatos. Eróticos
Jovens batem os címbios com luxúria;
Bebem-se vinhos tépidos e exóticos
De Cós, de Samos, de Chiraz, da Etrúria.
Vasos etruscos voltam das adegas,
Corre o falerno olente e rubicundo,
Como o sangue, na fúria das refregas,
Da ilharga de um atleta moribundo.
A mirra, nas caçoulas fumegando,
Desfaz-se em ondulâncias de perfume...
De instante a instante, irrompem, saraivando,
Gritos de raiva, apóstrofes de ciúme.
Os rouxinóis e os melros musicais
Trinam alegremente nos aviários,
Riçando as penas, leves, saltitantes,
Sob o vasto clarão dos lampadários.
E nos tanques de marmor cipolino
Vogam os cisnes — gôndolas de plumas, —
Deixando à flor do espelho cristalino
Flutuantes bolhas, flutuações de espumas...
Chegam os prisioneiros lusitanos
E gauleses tomados em Cartago,
Mais possantes que os tigres africanos
Que a corça aterram com o bramir pressago.
Abrem-se as flores da sensualidade!
Plena nudez! Palpitam carnes brancas!
Como os granizos numa tempestade
Estalam beijos pelas bocas francas.
Cada mulher é um rio de luxúria
Onde brincam dous sátiros: os seios,
Que, alvoroçados por estranha fúria,
O bico entesam em febris anseios.
Os bárbaros, arfando de lascívia,
Pedem com ternos olhos deslumbrados,
O manjar de uma carne moça e nívea,
Uivando como os lobos esfaimados!
— “O meu colar de gemas ao mais forte!”
Brada Herculano, o gasto sibarita,
E a luta infrene cresce num transporte
Que o torvelim de uma batalha imita.
Mais doce agora a música ressoa!
Ronca de amor a multidão devassa!
A última rosa da última coroa
Desfolha-se no Chipre de uma taça...
Cada qual mais ardente e mais cioso
Arrasta para longe uma hetaira:
Em cada peito, no apogeu do gozo,
Maviosamente um coração suspira!
Estala o rosmaninho. Sacudidas,
As grandes amoreiras rumorejam.
Travam-se lutas. Lâminas brunidas,
Como argênteos relâmpagos, lampejam.
Herculano de ciúme empalidece!
Falta-lhe a força antiga! O miserando
Impreca o céu, que, côncavo, parece
Um braseiro de opalas flamejando...
Vêm as essências fortes do Oriente:
Pastas afrodisíacas, perfumes
Excitantes: mas tudo inutilmente...
Não se reacendem apagados lumes!
As moças e os meninos com desvelo
Procuram reavivar-lhe a extinta chama;
Untam-lhe o corpo, beijam-lhe o cabelo:
Mas nada mais aquela carne inflama!
E o velho, com feição transfigurada,
Foge ao triclínio, cambaleando, iroso,
A guedelha de suores empapada
— Neblina de um inverno doloroso!
Apoiado a um mancebo a que se achega,
Afaga colos com sensual carícia;
Tenta a vida nos lábios de uma grega,
Busca amores no seio de uma egípcia.
A paciência lhe foge! Dilacera
O peito e esbofeteia os seus sequazes!
Contra a matéria morta vocifera
Bramindo como doze satanases!
— “Antes morresse o espírito!” arquejante,
Brada mordendo os pulsos doloridos;
Anda, tropeça num casal possante,
Pára, escuta as palavras, os gemidos;
Ri loucamente, aplaude, espreita, espia,
E, na explosão do bárbaro despeito,
Crava o estilete d’oiro, que irradia,
Na carne dos que gozam peito a peito.
As mulheres de súbito, medrosas,
Fogem ao velho, palpitas e belas,
Acendendo entre as pálpebras mimosas
Cintilações gemíferas de estrelas!
Os instrumentos para longe atiram,
E, voluptuosas, ébrias, dissolutas,
Rojam-se aos pés dos éfebos... Deliram!...
Gemem de gozo os sátiros nas grutas!
Lácteas donzelas de olhos tentadores
Suplicam beijos, beijos e mais beijos,
Para apagar os lúbricos ardores,
A vermelha flamância dos desejos.
Herculano, raivoso, o passo incerto,
Manda cessar a bacanal fremente:
Apenas se ouve o lânguido concerto
Dos beijos altos do conúbio ingente!
Trôpego, o ancião desvia-se dos pares,
Foge da “Villa” como de um inferno,
Volvendo às gregas cupidos olhares...
Em vão! Não pode florescer o inverno!
Corre, desvaira, e, em frente ao mar, que ofega,
Estaca... O mar! o mar também!... A lua,
Hetaira do Azul, ao mar se entrega,
Se entrega ao mar, como Anfitrite, nua!
De pé, na rocha — Tântalo sequioso, —
Horrendamente lívido e convulso,
Vendo-se fora do Éden delicioso,
Pragueja e grita, estorcegando o pulso!
Contra a impotência — humilhação suprema! —
Clama num torvo rictus de pagão...
— “Antes morresse o espírito!” blasfema:
E mergulha no mar como um tritão...