Tédio e riso

By João da Cruz e Sousa

A vida pela cidade

Não tem dos campos no estio

A doce felicidade

Da correnteza de um rio.

Tudo são sombras, tumulto,

Pesadelos tormentosos

Em que os risos são ocultos

Por densos véus tenebrosos.

Fumo, torres, monumentos,

Soberanos edifícios,

Tudo fala dos pensamentos,

Sem nunca esconder os vícios.

Praças, templos de granito,

Ostentações formidáveis,

Tudo se enleva num grito

De tédios imponderáveis.

Dentro do luxo, do orgulho

Dos ouropéis e das sedas

Estruge e brame o marulho

Da dor, nas ondas mais tredas.

Que ser feliz é ser forte,

Ter no peito um sol fecundo

Que apague a ideia da morte

E das misérias do mundo.

Ter d’aço e bronze a radiosa

Vontade feita harmonia,

Que floresce como a rosa

E que chama alegria.

Pois dos vínculos intensos

Do sangue, como raízes,

Brotam os lírios imensos

Do amor das almas felizes.

E enquanto em rio o ouro corre

Nas cidades de ar sombrio,

Nos campos a paz não morre,

Gozada à margem de um rio.