TENDO MANDADO UMA DAMA AO AUTOR VINHO DA MADEIRA, COM UMA CARTA EM BOA POESIA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Um humilde admirador

Da vossa bondade, e estilo.

Beija a carta preciosa,

Que veio honrá-lo, e instruí-lo:

Desde hoje, do mestre Horácio

Minha alma a lição escusa;

Quis a minha benfeitora

Ser também a minha musa:

De fino licor mandastes

A minha cava prover;

A vossa mão generosa

Sabe dar, como escrever:

Á parca mesa assentado.

Em vinho, e carta pegava;

Ia bebendo, ia lendo,

E tudo me embebedava:

Deixo o velho Anacreonte,

Hoje metido a um cantinho;

Sua mesa nunca teve

Tão bons versos, tão bom vinho:

Se os teve, vós os roubastes

Por minha felicidade;

Já cá tem o vinho, e os versos

Quem d’ele só tinha a idade:

Das escumas do Madeira

Vejo nascer a alegria;

Com as asas afugenta

A minha melancolia:

Já se perturba a cabeça;

Já tenho emprestadas cores;

Já começam a esquecer-me

As moléstias, e os credores:

O tal Horácio enganou-se;

Não conheceu a parreira;

Não se chamava Falerno;

Se era bom, era Madeira:

É bom, mas lira o juízo;

Mandai-mo, em vez de o beber

Não se arrisque Neste jogo

Quem tem tanto que perder.