TERCEYRA VEZ ACOMETTE AQUELLA EMPREZA QUEYXANDO-SE CONTRA MARIQUITA POR SE FINGI...

By Gregório de Matos Guerra

Vim ao sítio num lanchão,

Quita, e tudo achei trocado,

vós com peito atraiçoado,

e eu vendido por traição:

vós, Quita, nesta ocasião

fingistes-vos doentinha:

pálida estava a carinha,

mas tudo embustes de moça,

com que fizestes a vossa,

e eu, Quita, não fiz a minha.

Toda a casa vi inclinada

aos três vizinhos Cupidos,

são sóis de novo nascidos,

e eu sou lua já minguada:

não pude então fazer nada,

porque estáveis vós então

com tanta declinação

de carnes, e de saúde,

que nunca convosco pude

fazer minha obrigação.

De achar-vos esquiva, e dura

pudera eu escarmentar,

e contudo hei de tornar

ao Sítio provar ventura:

sempre alcança, quem atura,

quem não sofre, nada alcança,

hei de ir ver se acho bonança

no vosso mar alterado,

e perderei o esperado,

mas não perco a esperança.

Que vou as festas lograr

crerá todo o Sítio inteiro,

e eu vou ao vosso poleiro,

não mais que por vos galar:

se outra vez vos vir queixar

com fingimento traidor,

que vos aperta uma dor,

hei de vos dar um conselho,

é que metais de vermelho,

e logo tomareis cor.

Quita, entendidos estamos,

e a doença está distinta,

vós andais muito faminta

disto, que cópia chamamos:

e pois ambos lazaramos

deste mal pestilencial,

ambos curemos o mal,

tomai por curar a fome

o caldo dos grãos de home,

que é muito substancial.

Para ter contentamento

os rins tendes de escorrer,

aliás haveis de morrer,

Quita, de sêmen retento:

eu faço um protestamento,

de que não morreis por mim,

porquanto assim, ou assim

tronco velho, ou pau mociço

estou ao vosso serviço

com armas, e com rocim.