TESTAMENTO SOLENE

By José Joaquim Correia de Almeida

Em nome do triste fado,

Em nome da má ventura,

Que maltrata o Brasileiro,

Qual perdida criatura.

Em Constituição Política,

Nos paroxismos da morte,

O meu testamento faço

Por esta maneira e sorte:

Declaro ter quatro filhos,

Delegações da Nação,

Cujos nomes por extenso

Exarados aqui vão.

O Poder Moderador,

O Poder Legislativo,

O Poder Judiciário,

E o Poder Executivo.

Todos deixo por herdeiros;

Mas, por prudente cautela,

Conservem-se os três primeiros

Do quarto sob a tutela.

O Poder Moderador

Tome-se um Poder passivo,

Verdadeira manivela

Do Poder Executivo.

Não se meta a rabequista

O Poder Legislativo;

Seja moço de recados

Do Poder Executivo.

O Poder Judiciário

Represente bem ao vivo

Vingador d’alta justiça

Do Poder Executivo.

Da terça os remanescentes

Deixo para quinto herdeiro

Bastardo, espúrio poder,

O Poder do Reposteiro.

Por espontânea vontade

Deixo por testamenteiros

Todo o Conselho de Estado,

Ou qualquer dos Conselheiros.

E por esta melhor forma

Hei por findo o testamento,

Que espero seja cumprido

Depois do meu passamento.

Feito na Corte do Império

De Setembro aos vinte e nove,

No duo-de-quinquagésimo

Do século dezenove.

A testadora se assina

Com letra do próprio punho;

Cinco Ministros de Estado

Escrevem o testemunho.

O demônio, que escapara

Das plantas de São Miguel,

Faz as perguntas do estilo,

Lavra aprovação fiel.