TESTAMENTO SOLENE COM QUE FALECEU JUDAS ISCARIOTES
Eu Judas Iscariotes,
O pior dos mercadores,
Para livrar-me dos botes
De remorsos roedores,
Prestes à morte de laço,
O meu testamento faço.
Não tendo herdeiros forçados,
Para os quais deixe as heranças,
Reduzo a simples legados
Todas as minhas finanças;
E não digam financeiros,
Que são só trinta dinheiros.
Já de antemão condenado,
Sofrendo dores acerbas,
Eu não morro abintestado;
Pois ficam nas minhas verbas
(Assim não me falte a calma)
As ruins qualidades d’alma.
Do Deus vivo sobre a face
Sendo o meu ósculo a senha,
Logo todo o furor nasce
Na turba vil que se empenha
Em prender com violência
O Justo por excelência.
Seja esta ação meritória
Com letras de sangue escrita
Nas tristes folhas da história;
Porque dita e sempre dita
É sem dúvida que ela há de
Trazer-me celebridade.
E este célebre renome,
Sendo imitado com zelo
Por quem esse exemplo tome,
De obscuro pode fazê-lo
Um herói como os heróis
Que tu, ó tempo, não destróis.
Fui traidor, jamais o nego,
Entreguei o Santo Cristo,
De quem ainda arrenego;
E fui impelido a isto
Pela ambição desmedida,
Que me dá cabo da vida.
Deixo esta ambição imensa
Aos que acumulam ajudas,
Empregos, pensões e tença,
Além das causas miúdas;
Esses nem fartos de sopa
Metam prego sem estopa!
Fui traidor, jamais o nego,
Entreguei o Santo Cristo,
De quem ainda arrenego;
E fui impelido a isto,
Porque a inveja, negro verme,
Penetrou-me na epiderme.
Deixo, pois, a mesma inveja
A quem do mérito alheio,
Maior do que o seu, moteja,
E, sem escolha de meio,
Atribui ao vício rude
Boas ações de virtude.
Fui traidor, jamais o nego,
Entreguei o Santo Cristo,
De quem ainda arrenego;
E concorreu para isto
A ingratidão que devora
As entranhas onde mora.
A ingratidão mais infame
Deixo ao mau filho do povo,
Para que ao povo não ame,
E, nobre ou fidalgo novo,
Da anarquia tenha assombro,
E olhe por cima do ombro.
Fui traidor, jamais o nego,
Entreguei o Santo Cristo,
De quem ainda arrenego;
A cegueira é causa disto,
E os olhos da razão tapa,
Porque a razão não lhe escapa.
Eu deixo a cegueira interna,
Como funesto legado,
A quem os povos governa,
Ditador ou coroado;
Para que dobre os joelhos
Aos mais pérfidos conselhos.
Fui traidor, jamais o nego,
Entreguei o Santo Cristo,
De quem ainda arrenego;
E fui impelido a isto
Supondo fosse mais útil
Seguir doutrina mais fútil.
Eu deixo a futilidade
Aos que, nos dias de gala,
De maior solenidade,
Vão perfilar-se na sala,
E mostram ser cortesãos
Na etiqueta e beija-mãos.
Fui traidor, jamais o nego,
Entreguei o Santo Cristo,
De quem ainda arrenego,
E fui impelido a isto
Pela perfídia insensata,
Que de mim fez diplomata.
Deixo a perfídia latente
Para os que assinam contratos,
E vestem constantemente
De trapaças os seus atos;
Diplomatas comprometam
Negócios em que se metam.
Fui traidor, jamais o nego,
Entreguei o Santo Cristo,
De quem ainda arrenego;
E concorreu para isto
A má-fé que sempre tive
E em meu peito ainda vive.
Deixo a má-fé toda inteira
Para eleições e comícios;
Ela introduza onde queira
Os escândalos e vícios,
Ou se evaporem as atas,
Ou surjam as duplicatas.
Agora julgo oportuno
Legar os sonoros trinta,
Que numa bolsa reúno;
O financeiro consinta
No orçamento do tesouro
Esta vil quantia de ouro.
Vil quantia, ou mesmo cisco,
Este dinheiro maldito
Estabeleça no fisco
A moda, o sistema, o rito
De absorver em mil tributos
Do povo o trabalho e os frutos.
Aconselho e recomendo
A todo o meu legatário
Vá, quanto possa, comendo,
E responda ao mundo vário
Com o rifão — Ande eu quente,
E de mim ria-se a gente.
Para não haver intruso
Na partilha dos legados,
E para evitar o abuso,
Eu declaro excetuados
Os sectários da doutrina
Que o tal justo agora ensina.
Fantasiem a seu gosto
A quimérica igualdade,
E bebam lá o seu mosto
Em honra da liberdade;
Por meus cálc’los infalíveis
Eles serão impossíveis.