TESTAMENTO SOLENE COM QUE FALECEU JUDAS ISCARIOTES

By José Joaquim Correia de Almeida

Eu Judas Iscariotes,

O pior dos mercadores,

Para livrar-me dos botes

De remorsos roedores,

Prestes à morte de laço,

O meu testamento faço.

Não tendo herdeiros forçados,

Para os quais deixe as heranças,

Reduzo a simples legados

Todas as minhas finanças;

E não digam financeiros,

Que são só trinta dinheiros.

Já de antemão condenado,

Sofrendo dores acerbas,

Eu não morro abintestado;

Pois ficam nas minhas verbas

(Assim não me falte a calma)

As ruins qualidades d’alma.

Do Deus vivo sobre a face

Sendo o meu ósculo a senha,

Logo todo o furor nasce

Na turba vil que se empenha

Em prender com violência

O Justo por excelência.

Seja esta ação meritória

Com letras de sangue escrita

Nas tristes folhas da história;

Porque dita e sempre dita

É sem dúvida que ela há de

Trazer-me celebridade.

E este célebre renome,

Sendo imitado com zelo

Por quem esse exemplo tome,

De obscuro pode fazê-lo

Um herói como os heróis

Que tu, ó tempo, não destróis.

Fui traidor, jamais o nego,

Entreguei o Santo Cristo,

De quem ainda arrenego;

E fui impelido a isto

Pela ambição desmedida,

Que me dá cabo da vida.

Deixo esta ambição imensa

Aos que acumulam ajudas,

Empregos, pensões e tença,

Além das causas miúdas;

Esses nem fartos de sopa

Metam prego sem estopa!

Fui traidor, jamais o nego,

Entreguei o Santo Cristo,

De quem ainda arrenego;

E fui impelido a isto,

Porque a inveja, negro verme,

Penetrou-me na epiderme.

Deixo, pois, a mesma inveja

A quem do mérito alheio,

Maior do que o seu, moteja,

E, sem escolha de meio,

Atribui ao vício rude

Boas ações de virtude.

Fui traidor, jamais o nego,

Entreguei o Santo Cristo,

De quem ainda arrenego;

E concorreu para isto

A ingratidão que devora

As entranhas onde mora.

A ingratidão mais infame

Deixo ao mau filho do povo,

Para que ao povo não ame,

E, nobre ou fidalgo novo,

Da anarquia tenha assombro,

E olhe por cima do ombro.

Fui traidor, jamais o nego,

Entreguei o Santo Cristo,

De quem ainda arrenego;

A cegueira é causa disto,

E os olhos da razão tapa,

Porque a razão não lhe escapa.

Eu deixo a cegueira interna,

Como funesto legado,

A quem os povos governa,

Ditador ou coroado;

Para que dobre os joelhos

Aos mais pérfidos conselhos.

Fui traidor, jamais o nego,

Entreguei o Santo Cristo,

De quem ainda arrenego;

E fui impelido a isto

Supondo fosse mais útil

Seguir doutrina mais fútil.

Eu deixo a futilidade

Aos que, nos dias de gala,

De maior solenidade,

Vão perfilar-se na sala,

E mostram ser cortesãos

Na etiqueta e beija-mãos.

Fui traidor, jamais o nego,

Entreguei o Santo Cristo,

De quem ainda arrenego,

E fui impelido a isto

Pela perfídia insensata,

Que de mim fez diplomata.

Deixo a perfídia latente

Para os que assinam contratos,

E vestem constantemente

De trapaças os seus atos;

Diplomatas comprometam

Negócios em que se metam.

Fui traidor, jamais o nego,

Entreguei o Santo Cristo,

De quem ainda arrenego;

E concorreu para isto

A má-fé que sempre tive

E em meu peito ainda vive.

Deixo a má-fé toda inteira

Para eleições e comícios;

Ela introduza onde queira

Os escândalos e vícios,

Ou se evaporem as atas,

Ou surjam as duplicatas.

Agora julgo oportuno

Legar os sonoros trinta,

Que numa bolsa reúno;

O financeiro consinta

No orçamento do tesouro

Esta vil quantia de ouro.

Vil quantia, ou mesmo cisco,

Este dinheiro maldito

Estabeleça no fisco

A moda, o sistema, o rito

De absorver em mil tributos

Do povo o trabalho e os frutos.

Aconselho e recomendo

A todo o meu legatário

Vá, quanto possa, comendo,

E responda ao mundo vário

Com o rifão — Ande eu quente,

E de mim ria-se a gente.

Para não haver intruso

Na partilha dos legados,

E para evitar o abuso,

Eu declaro excetuados

Os sectários da doutrina

Que o tal justo agora ensina.

Fantasiem a seu gosto

A quimérica igualdade,

E bebam lá o seu mosto

Em honra da liberdade;

Por meus cálc’los infalíveis

Eles serão impossíveis.