TEVE NAQUELLA VILLA NOTICIA DE HUM PEDREYRO QUE DESESTIMAVA HUA POBRE MULHER, QU...
Senhor Mestre de jornal,
quem vir o seu coração,
dirá, logo, que é torrão,
não obra de pedra, e cal:
e se acaso por mou mal
não foi constante comigo,
sendo pedra, e cal consigo,
caia, e quebre a bom conselho
que assim faz um muro velho,
e assim o casebre antigo.
Se lá trata cães surrados,
e cuida, que me dá pique,
ou tomo por meu despique
tratar com homens honrados:
os seus jornais acabados,
acabou-se-lhe a comenda:
eu tenho segura a renda,
porque um homem principal
sem suar com pedra, e cal
dá muchíssima fazenda.
A Dama do jornaleiro
muito sua, e pouco medra,
cuida, que pega na pedra,
se a mão toma a um pedreiro:
eu dei num mau paradeiro,
mas soube-me retirar,
que se me deixo beijar
do pedreiro, que me toca,
fora meter-me na boca
pedra, e cal para amassar.
Lá faça a sua bambolha,
onde há tão pouca mulher,
que pela sua colher
vá comendo sobre a trolha:
eu cá como a limpa olha
mui limpa, cheirosa, e grata,
e ao menos colher de prata,
e sou tão firme em pegá-lo,
que regalo por regalo
cuido, que não fico ingrata.
Graças a Deus, que me soa
a limpeza o meu amor,
e me não fede o suor
do pedreiro, que me enjoa:
já agora me sinto boa,
já agora o gosto me pede,
que seja formosa adrede,
pois feia talvez se pára
a mulher, que troce a cara,
tendo amante, que lhe fede.
Adeus pois, meu Pedreirinho,
adeus, meu colher, e trolha
adeus caldo de má olha,
adeus triste raposinho:
que eu posta no meu cantinho
entre os meus mariscadores
como os mariscos melhores
o bom peixe, e não o mau,
nem o duro bacalhau
de pedreiros malhadores.