TEVE NAQUELLA VILLA NOTICIA DE HUM PEDREYRO QUE DESESTIMAVA HUA POBRE MULHER, QU...

By Gregório de Matos Guerra

Senhor Mestre de jornal,

quem vir o seu coração,

dirá, logo, que é torrão,

não obra de pedra, e cal:

e se acaso por mou mal

não foi constante comigo,

sendo pedra, e cal consigo,

caia, e quebre a bom conselho

que assim faz um muro velho,

e assim o casebre antigo.

Se lá trata cães surrados,

e cuida, que me dá pique,

ou tomo por meu despique

tratar com homens honrados:

os seus jornais acabados,

acabou-se-lhe a comenda:

eu tenho segura a renda,

porque um homem principal

sem suar com pedra, e cal

dá muchíssima fazenda.

A Dama do jornaleiro

muito sua, e pouco medra,

cuida, que pega na pedra,

se a mão toma a um pedreiro:

eu dei num mau paradeiro,

mas soube-me retirar,

que se me deixo beijar

do pedreiro, que me toca,

fora meter-me na boca

pedra, e cal para amassar.

Lá faça a sua bambolha,

onde há tão pouca mulher,

que pela sua colher

vá comendo sobre a trolha:

eu cá como a limpa olha

mui limpa, cheirosa, e grata,

e ao menos colher de prata,

e sou tão firme em pegá-lo,

que regalo por regalo

cuido, que não fico ingrata.

Graças a Deus, que me soa

a limpeza o meu amor,

e me não fede o suor

do pedreiro, que me enjoa:

já agora me sinto boa,

já agora o gosto me pede,

que seja formosa adrede,

pois feia talvez se pára

a mulher, que troce a cara,

tendo amante, que lhe fede.

Adeus pois, meu Pedreirinho,

adeus, meu colher, e trolha

adeus caldo de má olha,

adeus triste raposinho:

que eu posta no meu cantinho

entre os meus mariscadores

como os mariscos melhores

o bom peixe, e não o mau,

nem o duro bacalhau

de pedreiros malhadores.