TIPO ACADÊMICO

By José Joaquim Correia de Almeida

Nhonhô Chiquinho

está no curso,

e entre os colegas

já faz discurso.

É nos debates

da academia

ilustre lustre,

que os alumia.

É literato

tão erudito,

que a História abrange

em um só dito.

Sobe ao Parnaso

da Pauliceia,

corrige a Eneida,

mais a Odisseia.

Vate inspirado,

republicano,

só quer assunto

americano.

Diz-nos que temos

para poemas

nossas Lindoias,

nossas Moemas.

Por sermos bugres,

julga desdouro

falarmos língua

do Tejo e Douro.

E esta sentença

assim tão lisa

as belas letras

nacionaliza.

Traz novidades,

que só não cola

ramerraneiro

da antiga escola.

Mete em debuxos

os algarismos,

e num chichelo

os aforismos.

Um engenheiro,

um alopata,

na crassidade

ele os empata.

Diz que às demandas

dá descaminho

um advogado

sem pergaminho.

Supõe ser crime,

ou desaforo,

que os tais Rebouças

voguem no foro.

Em vão procura

no sacerdote

causa que preste,

e que se adote.

Em tudo enxerga

jesuitismo,

e só é crente

no espiritismo.

Sem ler nos livros

trata de tudo,

pois de nascença

já trouxe o estudo.

Nem da verdade

aqui me aparto,

se sábio o creio

antes do parto.

De oitenta idiomas

bem complicados

sabe os diversos

significados.

Mas é tão firme

no galicismo,

que, se este falha,

ainda eu cismo.

Que jovem útil,

e de esperanças,

se dos parentes

lhe vêm heranças!

Embora fosse

asno ou burrico,

cessava a asneira

em sendo rico.

Louvo a fortuna,

que lhe tem dado

um pai visconde

sem viscondado.

Com tanto esmero

o educara,

que o Chico briga,

e expõe a cara.

Sofre no lombo

dor de peroba,

e com azougue

toma caroba.

Por passatempo

pespega um couce,

e quem se queixa

equivocou-se.

Razão não teve

seu primo Juca,

que vai doente

para a Tijuca.

Seus atributos

não amesquinho,

que os tem de arromba

Nhonhô Chiquinho.

Se querem provas,

guardo-as comigo;

é o rapazete

da Pátria amigo.

Daqui a pouco

é candidato,

e isto, que afirmo,

assino e dato.

o Brasil medra,

se um só momento

entra o fedelho

no parlamento

Que prazer, vê-lo

deputadinho,

ou discorrendo,

ou caladinho!

Um nosso digno

representante

eu prognostico

desde este instante.

Uma lei velha

tem consignado

que velhos entrem

para o senado.

De ampla reforma

eu me avizinho,

e quero o Chico

senadorzinho.

Pater Conscriptus,

como rebuço,

tenha no beiço

ponta de buço.

Se el-Rei o apanha

por conselheiro,

acha uma agulha

neste palheiro.

Se chega um dia

a ser ministro,

no mar e em terra

não há sinistro.

A agricultura

toda se irriga,

enchem-se os bolsos,

mais a barriga.

O Brasil fértil

brota e floresce,

e o bicho ou larva

desaparece.

Se nos governa

este Messias,

oh que fartura

de melancias!

Mal o Chiquinho

seja Francisco,

nossas algemas

reduz a cisco.

E então o Estado

por lisonjeiro

fará inveja

ao estrangeiro.

E sem que o povo

trabalhe e canse,

será o tesouro

livre do alcance.