TIPO ACADÊMICO
Nhonhô Chiquinho
está no curso,
e entre os colegas
já faz discurso.
É nos debates
da academia
ilustre lustre,
que os alumia.
É literato
tão erudito,
que a História abrange
em um só dito.
Sobe ao Parnaso
da Pauliceia,
corrige a Eneida,
mais a Odisseia.
Vate inspirado,
republicano,
só quer assunto
americano.
Diz-nos que temos
para poemas
nossas Lindoias,
nossas Moemas.
Por sermos bugres,
julga desdouro
falarmos língua
do Tejo e Douro.
E esta sentença
assim tão lisa
as belas letras
nacionaliza.
Traz novidades,
que só não cola
ramerraneiro
da antiga escola.
Mete em debuxos
os algarismos,
e num chichelo
os aforismos.
Um engenheiro,
um alopata,
na crassidade
ele os empata.
Diz que às demandas
dá descaminho
um advogado
sem pergaminho.
Supõe ser crime,
ou desaforo,
que os tais Rebouças
voguem no foro.
Em vão procura
no sacerdote
causa que preste,
e que se adote.
Em tudo enxerga
jesuitismo,
e só é crente
no espiritismo.
Sem ler nos livros
trata de tudo,
pois de nascença
já trouxe o estudo.
Nem da verdade
aqui me aparto,
se sábio o creio
antes do parto.
De oitenta idiomas
bem complicados
sabe os diversos
significados.
Mas é tão firme
no galicismo,
que, se este falha,
ainda eu cismo.
Que jovem útil,
e de esperanças,
se dos parentes
lhe vêm heranças!
Embora fosse
asno ou burrico,
cessava a asneira
em sendo rico.
Louvo a fortuna,
que lhe tem dado
um pai visconde
sem viscondado.
Com tanto esmero
o educara,
que o Chico briga,
e expõe a cara.
Sofre no lombo
dor de peroba,
e com azougue
toma caroba.
Por passatempo
pespega um couce,
e quem se queixa
equivocou-se.
Razão não teve
seu primo Juca,
que vai doente
para a Tijuca.
Seus atributos
não amesquinho,
que os tem de arromba
Nhonhô Chiquinho.
Se querem provas,
guardo-as comigo;
é o rapazete
da Pátria amigo.
Daqui a pouco
é candidato,
e isto, que afirmo,
assino e dato.
o Brasil medra,
se um só momento
entra o fedelho
no parlamento
Que prazer, vê-lo
deputadinho,
ou discorrendo,
ou caladinho!
Um nosso digno
representante
eu prognostico
desde este instante.
Uma lei velha
tem consignado
que velhos entrem
para o senado.
De ampla reforma
eu me avizinho,
e quero o Chico
senadorzinho.
Pater Conscriptus,
como rebuço,
tenha no beiço
ponta de buço.
Se el-Rei o apanha
por conselheiro,
acha uma agulha
neste palheiro.
Se chega um dia
a ser ministro,
no mar e em terra
não há sinistro.
A agricultura
toda se irriga,
enchem-se os bolsos,
mais a barriga.
O Brasil fértil
brota e floresce,
e o bicho ou larva
desaparece.
Se nos governa
este Messias,
oh que fartura
de melancias!
Mal o Chiquinho
seja Francisco,
nossas algemas
reduz a cisco.
E então o Estado
por lisonjeiro
fará inveja
ao estrangeiro.
E sem que o povo
trabalhe e canse,
será o tesouro
livre do alcance.