Todas as mães

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Todos dizem que o seu filho

Não tem nos olhos o brilho

Que noutros olhos corusca;

Nem na boca a cor vermelha

Da rosa em que loura abelha

Doçuras e aromas busca.

Nem tem nas maçãs das faces

Das belas maçãs vivaces

A tinta que é cor do sangue;

Antes a cor macilenta

Que a febre contínua e lenta

Produz no organismo langue.

Nem tem sedosos cabelos

Encrespados, em novelos,

Em derredor do pescoço;

Nem uns ombros delicados,

Antes ambos transformados

Num tronco mal feito e grosso.

O seu nariz não se mede,

Nem outro nariz o excede

Em contornos singulares...

E tem nas linhas do queixo

O formidável desleixo

Dos artistas populares.

Suas orelhas caídas

Se apresentam retorcidas

Como os caracóis no pasto;

E a larga testa parece

Uma pedra que se aquece

Ao relento do céu vasto.

E os seus convulsivos braços

Lembram bem os dos palhaços

Nos circos de cavalinhos;

E as suas mãos convulsivas

Têm as falanges cativas

Como as que estão nos .

Ventre redondo e disforme,

Lembra o de um sapo que dorme

Em frente da sua casa;

E as suas pernas esguias

São as desse sapo, frias,

Quer o dia seja brasa...

E, além de tudo, tudo,

O seu filho é surdo-mudo,

E também não tem juízo;

Nem anda de corpo terso:

— Vive deitado num berço

Todo o tempo que é preciso...

Filho feio, o da Josefa;

Mas vive ela na tarefa

De lhe dar frementes beijos,

E os carinhos e os afagos

Dos seus negros olhos magos,

De sonhares benfazejos.

Assim são, no mundo vário,

Todas as mães que o rosário

Dos sofrimentos desfiam,

E com a maior verdade,

Ó Virgem da Piedade,

Nas tuas graças confiam.