Todas as mães
Todos dizem que o seu filho
Não tem nos olhos o brilho
Que noutros olhos corusca;
Nem na boca a cor vermelha
Da rosa em que loura abelha
Doçuras e aromas busca.
Nem tem nas maçãs das faces
Das belas maçãs vivaces
A tinta que é cor do sangue;
Antes a cor macilenta
Que a febre contínua e lenta
Produz no organismo langue.
Nem tem sedosos cabelos
Encrespados, em novelos,
Em derredor do pescoço;
Nem uns ombros delicados,
Antes ambos transformados
Num tronco mal feito e grosso.
O seu nariz não se mede,
Nem outro nariz o excede
Em contornos singulares...
E tem nas linhas do queixo
O formidável desleixo
Dos artistas populares.
Suas orelhas caídas
Se apresentam retorcidas
Como os caracóis no pasto;
E a larga testa parece
Uma pedra que se aquece
Ao relento do céu vasto.
E os seus convulsivos braços
Lembram bem os dos palhaços
Nos circos de cavalinhos;
E as suas mãos convulsivas
Têm as falanges cativas
Como as que estão nos .
Ventre redondo e disforme,
Lembra o de um sapo que dorme
Em frente da sua casa;
E as suas pernas esguias
São as desse sapo, frias,
Quer o dia seja brasa...
E, além de tudo, tudo,
O seu filho é surdo-mudo,
E também não tem juízo;
Nem anda de corpo terso:
— Vive deitado num berço
Todo o tempo que é preciso...
Filho feio, o da Josefa;
Mas vive ela na tarefa
De lhe dar frementes beijos,
E os carinhos e os afagos
Dos seus negros olhos magos,
De sonhares benfazejos.
Assim são, no mundo vário,
Todas as mães que o rosário
Dos sofrimentos desfiam,
E com a maior verdade,
Ó Virgem da Piedade,
Nas tuas graças confiam.