TORNA O POETA A DAR OUTRA VOLTA AO MUNDO COM ESTA SEGUNDA CRISI.

By Gregório de Matos Guerra

Que ande o mundo mascarado

jogando conosco o entrudo,

e que cada qual sisudo

ande atrás dele esgalgado!

que nenhum desenganado

este patifão conheça,

e que lhe quebre a cabeça

para ter dele vitória!

Boa história.

Mas que alguns queiram viver

vida tão bruta, e tão fera,

como que se não houvera

mais que nascer, e morrer:

que estes mesmos queiram ser

tão nobres, tão absolutos,

como desbocados brutos

correndo pela carreira!

Boa asneira.

Que haja turcos belicosos

filhos da perversidade,

havendo na cristandade

Monarcas tão poderosos:

que não se juntem zelosos

para prostrar seus furores,

mandando-se embaixadores

de eloquência persuasória!

Boa história.

Mas que haja com mais extremos

entre cristãos batizados

sacrílegos, renegados,

ímpios, judeus, e blasfemos:

que algum cristão (como vemos)

dos tais seja muito amigo,

tendo tão grande perigo

de pagar-se-lhe a manqueira!

Boa asneira.

Que tantas almas pereçam

hoje entre gentios vários,

por não haver Missionários,

que em convertê-los mereçam:

que muitos não se ofereçam

para esta santa conquista,

bem que o inferno o resista

com sugestão dissuasória!

Boa história.

Mas que muitos professores

da lei católica, e santa

se metam pela garganta

dos infernos tragadores:

que por uns tristes amores,

ou por uns negros tostões

vão para eternos tições

lá na hora derradeira!

Boa asneira.

Que muitos salvar-se esperem,

os bens alheios devendo,

e uma ocasião retendo,

porque emendar-se não querem:

e que jamais considerem,

que deixar a ocasião

é para uma confissão

circunstância obrigatória:

Boa história.

Mas que quando alguns resolvam

confessar os seus delitos,

que hajam tantos imperitos

confessores, que o absolvam:

que com eles se revolvam

no estígio, que mereceram,

porque estes tais absolveram

sem disposição inteira:

Boa asneira.

Que no estado secular,

onde houve mais de mil Santos,

haja hoje tantos, e tantos,

que se não sabem salvar:

que estes não queiram cuidar

na celestial ventura,

havendo uma pena dura,

eterna, e cominatória!

Boa história.

Mas que nas Religiões

alguns Frades maus Letrados

sejam de Deus reprovados

pelas suas eleições:

que andam com perturbações

por amor das prelazias,

e depois de breves dias

se acham na estígia caldeira

Boa asneira.

Que algum Frade, que se cobre

na santa comunidade,

no tempo, que é pobre frade,

não queira ser frade pobre:

que ao mesmo tempo lhe sobre

o dinheiro equivalente

para alcançar facilmente

a valia impetratória!

Boa história.

Mas que um Frade de mais fundo

por causa de certos mandos

se queira meter em bandos,

qual se fora vagabundo:

que podendo ir cá do mundo

ao céu vestido, e calçado,

vá descalço, e remendado

para uma infernal Leoneira!

Boa asneira.

Que haja pregador noviço,

que estude alheios sermões,

só para juntar dobrões,

porque os ajunta por isso:

que cuide muito remisso,

que poderá bem pregar

sem teologia estudar,

ou sem saber a oratória!

Boa história.

Mas que haja mais pregadores,

que estudando resolutos,

não tratem de colher frutos,

porém só de escolher flores:

que sendo estes tais doutores

preguem conceitos galantes,

bem como os representantes

na comédia prazenteira?

Boa asneira.

Que os rústicos montanheses

não saibam nunca a doutrina,

porque também nunca a ensina

o Pároco a seus fregueses:

que lhes diga muitas vezes

patranhas, e histórias tantas,

mas nunca as palavras santas,

e a doutrina exortatória!

Boa história.

Mas que Amariles mui vã

saiba muito bem de cor,

toda a cartilha de amor,

não a doutrina cristã:

que se vá pela manhã

na quaresma à confissão,

e por não sabê-la então

vá para casa à carreira!

Boa asneira.

Que o Juiz pelo respeito

profira a sentença absorto,

fazendo o direito torto,

mas isto a torto, e direito:

que cuide, que pode o feito

no agravo, ou na apelação

melhorar na Relação

só pela conservatória!

Boa história.

Mas que o Juiz da ciência

por causa de alguns respeitos

não faça exame nos feitos,

por forrar o da consciência:

que o tal com muita insolência

por descuido, ou por preguiça

não reforme esta injustiça

da sentença lisonjeira!

Boa asneira.

Que Juízes mentecaptos

sabendo jurisprudência

castiguem uma inocência

como fez Pôncio Pilatos:

que para certos contratos

o réu, que a si se condena

absolvam de culpa, e pena

com uma interlocutória!

Boa história.

Mas que outros com vozes mudas

levados da vil cobiça

vendam a mesma justiça,

como a vendeu o mau Judas:

que com razões tartamudas

indo de mal em pior

não dêem conta ao confessor

da sentença trapaceira!

Boa asneira.

Que o Letrado lisonjeiro

venda, fazendo negaças

em almoeda as trapaças,

e por muito bom dinheiro:

que diga, que é verdadeiro

porque tem famosas partes

pelas suas grandes artes,

pela cota dilatória!

Boa história.

Mas que o Ministro o suporte,

porque isto na alçada cabe,

ou pelo que ele só sabe,

tantas dilações não corte:

que primeiro chegue a morte,

e o juízo universal,

do que a sentença final

de uma demanda ligeira!

Boa asneira.

Que haja causas inda assim

na Legacia piores,

porque entre réus, e entre autores

são causas, que não têm fim:

que se conseguis o fim

de vir em breve um rescrito,

o tempo seja infinito,

e eterna uma compulsória!

Boa história.

Mas que alguns com tal porfia

queiram com raivas internas,

sendo a parte por eternas

demandas na Legacia:

que hajam muitos cada dia,

que gastem seus benefícios

simples nestes exercícios

trepando uma, e outra ladeira!

Boa asneira.

Que haja Escrivães que mal lêem

Letra, que bem se soletra,

e que fazendo má Letra,

contudo escrevem mui bem:

que a este dando o parabém

as alvíssaras lhe peçam,

e a estoutro logo despeçam

com ficção consolatória!

Boa história.

Mas que haja algum, que trabalha

toda a vida sem proveito,

e que logo faça um pleito

sobre dá cá aquela palha:

que queira em civil batalha

perder a fazenda, e vida

nas trapaças consumida,

com quem lhe faz a moedeira!

Boa asneira.

Que andam muitos em conjuro

para cometerem vícios,

roubando nos seus ofícios,

e com cartas de seguro,

que estes, dos quais eu murmuro,

não vão todos a enforcar,

só porque sabem roubar

com sua astúcia notória!

Boa história.

Mas que andem muitos espertos

esganados como galgos,

por parecerem fidalgos,

sendo ladrões encobertos:

que estando estes mesmos certos,

que os conhecem muito bem,

não se lhes dêem de ninguém,

nem isto lhes dê canseira!

Boa asneira.

Que haja médicos, que tratam

só de jogos, e de amores,

sendo como os caçadores,

que vivem só, do que matam:

que estes, que não se recatam,

venham com pressa esquisita,

vão-se, e está feita a visita

depois da purga expulsória!

Boa história.

Mas que outros, que põem à raça,

e se prezam de estafermos,

não o tomando aos enfermos,

só tomem o pulso à casa:

que haja enfermo, que se abrasa

em febre, e dores mortais,

e que se cure com tais,

que só estudam na frasqueira!

Boa asneira.

Que haja Poetas ocultos

nas sombras da poesia,

fugindo da luz do dia.

e que estes se chamem cultos;

que sendo loucos, e estultos,

por natural tenebrosos

queiram, que os chame lustrosos

a fama celebratória!

Boa história.

Mas que muitos os defendam

pelos seus gênios bem raros

chamando-os belos, preclaros,

suposto que os não entendam:

que os tais imitar pertendam

a poesia de Angola,

cuja catinga os consola,

qual mandioca negreira!

Boa asneira.

Que haja muitos pertendentes,

só porque têm prendas boas

nas arcas, não nas pessoas,

que a todos fazem presentes:

que consigam diligentes,

quanto quer o seu intento,

por lhes dar merecimento

a carta condenatória!

Boa história.

Mas que outros mil alentados,

que andaram pelas campanhas

fazendo muitas façanhas,

andem tão esfrangalhados:

que sendo uns pobres coitados

queiram pertender também,

não se lhes dando a ninguém,

que andassem pela fronteira!

Boa asneira.

Que um marido perdulário

perca o dote da mulher,

e depois de pouco ter,

gaste mais do necessário:

que se ponha temerário

depois a gritar com ela,

fazendo-lhe a remoela

com a praga imprecatória!

Boa história.

Mas que outro com tanto estudo

ame a mulher, que lhe agrada,

que o marido mande nada,

mas que a mulher mande tudo:

que se ponha mui sisudo

em casa a lisonjeá-la,

e que depois vá gabá-la

a seus amigos na feira!

Boa asneira.

Que um pai a seu filho ensine

a ser vingativo, e vão,

porém nunca a ser cristão,

nem na cartilha o doutrine:

que o tal Pai se determine

a levá-lo por seu rogo

rapaz à casa do jogo

a pôr-se na pasmatória!

Boa história.

Mas que outro mais esquisito,

se o filho só andar ousa,

o permita: é bela cousa!

Sendo rapaz: é bonito!

que o deixe de pequenito

andar em más companhias

para que ele em breves dias

vá cair na ratoeira!

Boa asneira.

Que o Pai pela descendência

do filho, ou do seu aumento

meta a filha num convento

freira da conveniência:

que não faça consciência,

se a casá-la o persuade,

de lhe forçar a vontade,

e com ordem peremptória!

Boa história.

Mas que o Pai, que filha tem

única, a não vá casar,

por se não desapossar,

se dote lhe pede alguém:

que faça com tal desdém,

que a filha ande às furtadelas

buscando pelas janelas

alguém, que traz cabeleira!

Boa asneira.

Que os Pais andem pelos cantos

namorando de contino,

e queiram com este ensino

que os seus filhos sejam Santos:

que eles então façam prantos,

se os vêem mortos numa briga,

vindo de casa da amiga,

e da amante parlatória!

Boa história.

Mas que haja Pais de tal sorte,

que seu filho o quer roubar,

o não deixem castigar

para escarmento da Corte:

que se o Ministro de porte

o quer desterrar, então,

o Pai chorando o perdão

lhe solicite, e requeira!

Boa asneira.

Que Mãe desde pequenina

ensine a filha a ser vã,

não a doutrina cristã,

sendo cristã sem doutrina:

que a costume de menina

à moda, ao donaire, à gala,

e lhe ensine por amá-la

até cantiga amatória!

Boa história.

Mas que outra Mãe sem cautela

a filha crie com vício

sem outro algum exercício

mais, do que o pôr-se à janela:

que queira, que uma donzela

seja honesta, e recolhida,

quando não tem outra vida

mais do que ser janeleira!

Boa asneira.

Que alguns queiram Senhoria,

quando aos tais (como se vê)

o tratá-los de mercê

fora muita cortesia:

que ande pois a fidalguia

vendida assim por dinheiro,

como trigo no terreiro,

só porque há nisso vanglória!

Boa história.

Mas que outros tendo tostões

pelo jogo, ou pela dama

arrastados pela lama

andam como uns pedinchões:

que gastassem seus dobrões,

porque quiseram jogar,

e só para namorar

com a patifa terceira!

Boa asneira.

Que alguns tanto por seu mal

vistam (por não ser comuns)

de altos, e ricos tissuns,

destruindo o cabedal:

que com porfia fatal

se mostram nisso empenhados,

sendo a noite os seus guisados

azeitonas, e chicória!

Boa história.

Mas que outros mil à porfia

por toda a vida o dinheiro

ajuntem, que o seu herdeiro

há de gastar num só dia:

que andem com melancolia

sem comer, e sem cear

para poder ajuntar

todos cheios de lazeira!

Boa asneira.

Que haja muitos ateístas,

que pelos costumes seus

não crêem, no que disse Deus

pelos quatro Evangelistas:

que só vivam Dogmatistas,

cuidando por seu prazer,

que há só nascer, e morrer,

não crendo no inferno, e glória!

Boa história.

Mas que outros (como se vê)

sejam com hipocrisia

só cristãos por cortesia,

ou fiéis de meia-fé:

que inda que febre lhes dê,

não tratem da confissão,

cuidando, que escaparão

com a amiga à cabeceira!

Boa asneira.

Que alguns fantásticos vãos,

aos quais o vício consome,

sendo só cristãos no nome,

queiram nome de cristãos:

que aos céus levantando as mãos

esperam com muita fé,

que Deus os salve, sem que

obra tenham meritória!

Boa história.

Mas que hipócritas sandeus

andem rezando, e no cabo

a todos leve o diabo

pelo caminho de Deus:

que pelos rosários seus

queiram ser homens de conta,

sem cuidar na estreita, e pronta,

que hão de dar da vida inteira!

Boa asneira.

Que haja certas mercancias

não de cousas temporais

mas de outras espirituais,

que se chamam simonias:

que haja, quem todos os dias

com modo tão peregrino

seja Ladrão ao divino

com tão falsa narratória!

Boa história.

Mas que o rico prebendado

que postilou nas escolas,

não pague as suas esmolas

ao pobre necessitado:

que por amor do Cunhado,

ou por causa dos Sobrinhos

venha a cair de focinhos

na sempiterna esterqueira!

Boa asneira.

Que o riso despreze o pobre,

só porque tem mais vinténs,

sendo o pobre inda sem bens

talvez mais honrado, e nobre:

que por ter dois réis de cobre,

se finja, que vem dos Godos,

quando conhecemos todos,

que é de estirpe pescatória!

Boa história.

Mas que o pobre, que não tem,

que comer, ou que gastar,

nem tem sangue, nem solar,

seja soberbo também:

que não tenha um só vintém,

e se inche como pirum,

conhecendo cada um,

que fora a Mãe taverneira!

Boa asneira.

Que alguns tanto a gastar venham

na vida de toda a sorte,

que depois chegando a morte,

com que enterrar-se não tenham:

com estes tais, que assim se empenham

em todo o gosto, e prazer,

não cuidem, que hão de morrer,

nem tenham disso memória!

Boa história.

Mas que outros com muita lida

edifiquem mausoléus,

mas não morada nos céus,

vãos na morte, e vãos na vida:

que a soberba sem medida

fique em pedras estampada,

e a pobre da alma coitada

que perneie na fogueira!

Boa asneira.

Que aqueles, que não têm renda,

e usam porém de tramóias,

possuam telas, e jóias,

como o que tem a comenda:

que com estes não se entenda,

inda que estejam culpados,

mas que sejam celebrados

na lisonja laudatória!

Boa história.

Mas que outros com muitos bens

andem (não sei como o diga)

com a sela na barriga

sem ter um par de vinténs:

que padecendo vaivéns

gastem tudo como tolos,

e em doces, e bolinholos

despejem sua algibeira!

Boa asneira.

Que os lisonjeiros sem leis

nos palácios muito prontos

aos Reis se vão com mil contos,

por ter mil contos de réis:

que sendo pouco fiéis

tenham glória, e tenham graça

com tão verdadeira traça,

e mentira adulatória!

Boa história.

Mas que o pobre jovial

chocarreiro de vis traças

queira com fingidas graças

entrar na graça Real:

que quando ele nada val,

entre assim no valimento,

para o seu requerimento

com a gracinha grosseira!

Boa asneira.

Que haja ingratos descuidados,

os quais nunca as graças dão

do benefício, ou pensão,

sendo uns beneficiados:

que estes andem retirados,

de quem lhes faz tanto bem,

porque as graças lhe não dêem,

que é lei remuneratória!

Boa história.

Mas que outros muito piores

(quando tal lhes não merecem)

finjam, que eles não conhecem

os seus mesmos benfeitores:

que tendo alguns acredores

queiram livrar do perigo

pelo benfeitor antigo

com a súplica embusteira!

Boa asneira.

Que haja muitos, que se pintam

de verdadeira piedade,

os quais falando verdade,

nunca falam, que não mintam:

que estes mesmos não consintam,

que os enganem, mas primeiros

se intitulam verdadeiros

com mentira defensória!

Boa história.

Mas que tenham fatal ira,

se os apanham, tendo pronta

a verdade por afronta,

e por crédito a mentira:

que com raiva, que delira,

façam na razão teimosa

a verdade mentirosa,

e a mentira verdadeira!

Boa asneira.

Que juradores parleiros

hajam, que sem medo algum

pela manhã em jejum

comam diabos inteiros:

que eles sejam os primeiros

(bem que a verdade não digam)

que o bom crédito consigam

para toda a rogatória!

Boa história.

Mas que haja algum, que imprudente

dê credito a seus clamores,

vendo, que são juradores,

pois quem mais jura mais mente:

que logo tão facilmente

se creia com tal loucura,

o que dizem, sendo a jura

da mentira pregoeira!

Boa asneira.

Que haja muitos, que murmurem

daqueles, que estão ausentes,

e os que ali se acham presentes,

que calados os aturem:

que advertidos não procurem

mudar de conversação

fugindo à murmuração

de uma língua infamatória!

Boa história.

Mas que outros mil sem receios

não vejam por ter antolhos

a grande trave em seus olhos,

vendo a palha nos alheios:

que estando estes próprios cheios

de lepra, com que se tingem,

olhem para a alheia impingem,

tendo tão grande coceira!

Boa asneira.

Que versistas a milhares

queiram só por seu regalo

andar no alado cavalo,

devendo ser alveitares:

que intentem por singulares

todo o aplauso, que mais campa,

e depois saiam na estampa

com uma destampatória!

Boa história.

Mas que estes de tão má veia,

quando a ignorância lhes sobra,

saindo mal da sua obra,

se metam em obra alheia:

que quando essoutra recreia,

por inveja a satirizem,

e que todo o mundo avisem

da sátira frioleira!

Boa asneira.

Que haja mil de escornicoques,

que com satíricos modos

zingando estejam de todos:

e que não temam mil coques:

que falando com remoques,

eles não queiram ser tidos

por toleirões, e atrevidos,

tendo uma língua irrisória!

Boa história.

Mas que outros muitos Orates

da venerável igreja

façam casa de cerveja

com risos, e disparates:

que pareçam bonifrates,

as cabeças meneando,

e acenem de quando em quando

à Dama, que está fronteira!

Boa asneira.

Que alguém junte cabedais

para testar, o que em breve

diga: o diabo te leve,

porque não deixastes mais:

e que, a quem com razões tais

ao diabo os encomenda

deixe este a sua fazenda

a principal, e acessória!

Boa história.

Mas que outro rico avarento

(bem que ouro, e prata lhe sobre)

não saiba dar nada ao pobre

com moedas cento a cento:

que deixe em seu testamento

tudo ao mais rico vizinho,

ou quando muito ao Sobrinho,

para andar numa liteira!

Boa asneira.

Que haja muitos, que às centenas

entre os amigos, e sócios

façam bem os seus negócios,

cometendo mil onzenas:

que conhecendo-se as penas,

que pelo direito têm,

não os demande ninguém

cuma carta citatória!

Boa história.

Mas que o outro em confiança

diga, que vende o seu trigo

mais barato a seu amigo,

metendo-lhe então a lança:

que o tal lhe faça a fiança

por ser amigo leal,

roubando-lhe o cabedal

essa amizade onzeneira!

Boa asneira.

Que haja, quem faltando às Leis

seja traidor por um rogo,

não se lhe dando no jogo

nem de Roques, nem de Reis:

que tenha ambições cruéis

sabendo, que inda que cresça,

não levantará cabeça

pela lei impetratória!

Boa história.

Mas que inda que se atropele,

e de tal se não desvie,

que haja, quem dele se fie,

e quem se troça por ele:

que não tema a sua pele

vendo, que lha surraram

só pela sua ambição

tão fatal, e interesseira!

Boa asneira.

Que haja muitos pandilheiros,

os quais às mil maravilhas

saibam fazer as pandilhas,

que em Castela são fulheiros:

que só por interesseiros

sejam ladrões mui honrados,

mas nunca são enforcados,

porque isso é graça ilusória!

Boa história.

Mas que outros sabendo bem

que há no jogo esta destreza,

só por uma sutileza

entreguem tudo, o que têm:

que o cabedal todo dêem

ao tal, que nesta conquista

os está roubando a vista

despacio, mais à ligeira!

Boa asneira.

Que andem muitos namorados

qual ave de rama em rama

atrás de uma, e outra Dama

morrendo por seus pecados:

que por ter estes cuidados

andem toda a noite escura

só por dizer com ternura

à Dama a jaculatória!

Boa história.

Mas que alguém pague às espias

para ter Freiras devotas,

e depois de mil derrotas

ande pelas portarias:

que ande este todos os dias

com cargas, e sem carreto,

e tendo-se por discreto

seja o burrinho da feira!

Boa asneira.

Que os adúlteros adorem

a alheia mulher, que vêem,

e não queiram, que também

outros a sua namorem:

que então neste caso implorem

à Justiça, ou à vingança,

e não queiram sem tardança

outra ação acusatória!

Boa história.

Mas que uma mulher casada,

sendo o Marido um corisco,

pondo-se a tamanho risco

seja louca enamorada:

que se acaso alguém lhe agrada,

com marido turbulento

busque o seu divertimento

como uma mulher solteira!

Boa asneira.

Que ande o moço em mau estado

podendo nos anos seus

ser desposado com Deus,

e não co demo amigado:

que não tenha outro cuidado,

mais que em viver absoluto,

tratando só como bruto

desta vida transitória!

Boa história.

Mas que o velho, que renova

os seus vícios namorando

vá falar à Dama, quando

anda cos pés para a cova:

que este mesmo com corcova

queira ser galã narciso

motivando a gente a riso,

cacundo em grande maneira!

Boa asneira.

Que haja muitos medianeiros

do mal, que chamam francês

os quais em bom português

dos pecados são terceiros:

que estes muito lambareiros

tenham com todos caída,

e levem tão boa vida,

sendo tão criminatória!

Boa história.

Mas que estes pobres tolinhos,

de que tratos há do mundo,

caiam no inferno profundo

pelas culpas dos vizinhos:

que por tão feios caminhos

sejam solicitadores,

e se façam Lavradores

de uma infernal sementeira!

Boa asneira.

Que os valentões arrojados

andem feitos tranca-ruas

com suas espadas nuas

comendo a gente a bocados:

que os Ministros alentados

se os prendam, quais delinquentes,

digam, que estão inocentes

na sentença executória!

Boa história.

Mas que outros andem de noite,

morando perto o Juiz,

roubando, como se diz,

dando em todos muito açoite:

e não haja, quem se afoite

com quadrilhas agarrá-los,

para um algoz cavalgá-los

com capuz, e com coleira!

Boa asneira.

Que alguns, bem que os não encanta

a música celestial,

gastem todo o cabedal

em bons passos de garganta:

que os tais com gula, que espanta,

se o mundo fora guisado

o comeram de um bocado,

qual pequena pepitória!

Boa história.

Mas que haja, quem facilmente

dinheiro fie dos tais,

que vai para o vós reais

logo todo incontinente:

que o credor cuide contente,

que bem empregado está,

estando o dinheiro já

em casa da confeiteira!

Boa asneira.

Que andem muitos à porfia,

que merecem muito açoite,

fazendo do dia noite,

da noite fazendo dia:

que durmam com demasia

té o dia anoitecer,

querendo assim bem viver,

mas com vida implicatória!

Boa história.

Mas que outros com muito espanto

trabalhem sempre à porfia,

isto todo o santo dia,

inda sendo o dia Santo:

que tenham trabalho tanto

para poder ajuntar,

não tendo para testar

nem herdeiro, nem herdeira!

Boa asneira.

Que haja alguns, que se consomem

inda com vício mais feio,

que por não comer o alheio

logo de inveja se comem:

que sua ambição não domem,

e que dos outros o aumento

aos tais sirva de tormento

com pena meditatória!

Boa história.

Mas que outros, que se desfazem,

porque não têm sendo nobres,

façam muito por ser pobres,

isto porque nada fazem:

que com fome estes se abrasem,

que tanto mal ocasiona,

sendo a preguiça potrona

da pobre da companheira!

Boa asneira.

Que alguém que aqui se consome

com a sátira abundante,

diga, que está mui picante,

mas quem se queima, alhos come:

que este por si mesmo a tome,

quando eu falando bem claro,

a ninguém hoje declaro

nesta carta monitória!

Boa história.

Mas que outros por vários modos

satirizem muito bem,

e sem monir a ninguém

queiram declarar a todos

que estes tais com mil apodos

assim queiram ganhar fama,

quando a dos outros se infama,

levantada tal poeira!

Boa asneira.

Que haja sem livros Letrado,

homem, que é pobre, com teima,

poeta, sem muita fleima,

e sem muleta aleijado:

que haja sem funda quebrado,

estudante sem estudo,

cavalheiro sem escudo,

e mestre sem palmatória!

Boa história.

Mas que haja nos fracos ira,

e nos que são pobres gula,

que haja médico sem mula,

e fidalgo com mentira:

que haja espingarda sem mira,

sem tesoura cirurgião,

com partidos matassão,

e sem contas merceeira!

Boa asneira.

E que eu também queira enfim

no poético exercício,

que entre outros do mesmo ofício

algum diga bem a mim:

que não tema algum malsim,

que fiscalize os meus versos,

e com apodos diversos

diga, que têm muita escória!

Boa história.

Mas que eu mesmo furibundo

nisto, que hoje aqui pertendo,

quando a mim me não entendo,

intente emendar o mundo:

que não tendo muito fundo,

para que possa falar,

quanto mais para emendar,

fundar tais acentos queira!

Boa asneira.

Que os consoantes se acabem,

tendo eu muito, que escrever,

e de outros mais que dizer,

para que nenhuns se gabem:

que as cousas, que aqui não cabem,

eu as haja de calar,

porque as não pode explicar

minha Musa exortatória!

Boa história.

Mas que eu fizesse hoje estudo

para cousas importantes,

por estéreis consoantes,

que não podem dizer tudo:

que algum diga carrancudo,

quando escrevo para todos,

que não falo em cultos modos,

mas em frase corriqueira!

Boa asneira.