TORNA O POETA AO SITIO DE CAJAIBA, E SE ADMIRA DAS MUDANÇAS EM QUE O VE.

By Gregório de Matos Guerra

Está o sítio esgotado

das Putas, que lhe deixei,

pois apenas nele achei

o bagaço do pecado:

Polônia me dá enfado,

e sua ausência me embaça,

porque se a boca arregaça,

com tanta graça se ria,

que eu lhe disse, que podia

rir-se até da mesma Graça.

Faltam outras, que eu deixei,

como é Inácia Barrosa,

que inda que puta escabrosa,

presta, para o que eu bem sei:

falta a do aqui-d’El-Rei

a Beleta gritadeira,

que se gruda de maneira

com xaropes, que cozinha,

que fica uma donzelinha

e não sabe a parideira.

Falta a Gafeira dos gatos,

que movida da consciência

fala ao Branco em penitência

de se dormir cos Mulatos:

deixou negregados tratos,

e quis a um Branco arrimar-se

não mais que para emendar-se

e assim ao branco amigão

tem por mortificação,

por ver se pode salvar-se.

Falta, pois nunca aparece,

Lourença, que chamam Cuia,

que com cara de aleluia

nem por isso me apetece:

e se ela desaparece

por guardar ao Mano fé,

não me meto eu no porquê

mas puta tão desluzida,

ande-se embora escondida,

que me faz muita mercê.

Falta Benedita cuja

vasquinha, ou saia vermelha,

suposto, que cristã velha

não deixava de ser suja:

falta, porque era coruja,

e toda a noite vagava,

e a quantos homens topava

(diziam-me alguns mirones)

que não sabe dizer nones,

e assim aos pares se dava.

Falta Luzia a Sapata,

que estava na Cajaíba,

arriba, putas, arriba,

não se torne a Ilha em mata:

falta uma, e outra Mulata,

e se acaso se acha aqui

a Conga, a Calabari,

e outras negras no folguedo,

como as dorme o Azevedo,

quem há de ir folgar-se ali?

Vou-me do sítio famoso

queixoso e desesperado,

das Mulatas esfaimado,

das Negras escrupuloso

não torno a tal rio undoso,

que tanto pisei, e enquanto

me recolho em um recanto,

onde à vida veja o cabo,

o sítio va co diabo,

e as Mulatas outro tanto.

Não falo nas nossas Quitas,

nas Maranas, nas Antônias,

que as mais são umas demônias,

e estas umas Angelitas:

as mais são umas malditas,

que fedem sempre ao peixum;

na praça comerei um

salmonete singular,

e aqui não quero trocar

a Cioba pelo Atum.