Trompa de Roldão

By João da Cruz e Sousa

Rude e membrudo deus peludo, hirsuto,

Convulso como um torvo Laocoonte,

Em que mundo, em que céu, em que horizonte

Foste gerado assim horrendo e bruto?

Que fruto podre, que maldito fruto

Envenenado, d’algum pétreo monte

Tragaste — que só tens no olhar, na fronte

E dentro d’alma o mais tremendo luto?

Que devastadas e longínquas terras,

Que sociedades, religiões e guerras

Deram-te à Dor o aspecto assim profundo?

Quem és, ó deus peludo, ó deus nefando?...

Ah! és o homem, bem sei, e vens calçando

A pata de Satã por sobre o mundo!