Trovas

By João da Cruz e Sousa

Um brigue de velas pandas,

E bandeirolas nos mastros,

Andou por aquelas bandas,

Rutinado pelos astros.

Rutinou sempre pra Leste,

Com marujosos portugueses,

E ao cabo de muitos meses

Voltou com vento Nordeste.

E o trouxe ele no bojo?

— Trouxe quarenta cativos;

Peitos tristes, aflitivos,

No mais tristíssimo apojo.

E assim que foram chegados

Batizou-os o vigário.

E depois de batizados,

Que suplício extraordinário!

Todos à roça, ao trabalho,

Doentes ou não doentes,

Sob o maldito espantalho

Dos chicotes reluzentes.

E quem, triste, se queixava

De não ter força e saúde,

Incontinente apanhava

A chicotada mais rude.