TU TEIMAS EM DESPREZAR-ME, EU TEIMO EM TE IDOLATRAR, JUNTAREI TEIMA COM TEIMA TE...
De ser comigo piedosa
Não dás, Marília, esperanças:
Inda, cruel, não te cansas
De ser esquiva e teimosa!
Que importa, ó ninfa formosa,
Vir Neste pego arriscar-me.
De mergulho ao mar lançar-me,
E os livres peixes colher-te;
Se quanto eu teimo em querer-te.
Tu teimas em desprezar-me?
C’os olhos ao céu erguidos,
Ou postos nos longos mares,
Por ti encho os vagos ares
De mil saudosos gemidos:
Nos rochedos desabridos,
Que em vão bate o rouco mar.
Devorando o meu pesar,
Já que de ouvi-lo te cansas.
Sem premio, sem esperanças
Eu teimo em te idolatrar.
Teimando, se mal não penso,
Hei de abrandar teus rigores;
Porque assim como em amores,
Também em teimas te venço.
Juro pelo sol intenso,
Que a prumo estas rochas queima.
Que mais do que eu ninguém teima.
São as causas desiguais:
Mas por ver quem teima mais,
Juntarei teima com teima.
Se alva fonte murmurando
Gasta em torno os duros seixos,
E vai dos anosos freixos
As raízes escarnando:
Se duras rochas quebrando
Vai c’o tempo o bravo mar:
Se bronzes pôde cortar
Mordente lima teimosa:
Também eu, ninfa formosa,
Teimando te hei de abrandar.