TU TEIMAS EM DESPREZAR-ME, EU TEIMO EM TE IDOLATRAR, JUNTAREI TEIMA COM TEIMA TE...

By Nicolau Tolentino de Almeida

De ser comigo piedosa

Não dás, Marília, esperanças:

Inda, cruel, não te cansas

De ser esquiva e teimosa!

Que importa, ó ninfa formosa,

Vir Neste pego arriscar-me.

De mergulho ao mar lançar-me,

E os livres peixes colher-te;

Se quanto eu teimo em querer-te.

Tu teimas em desprezar-me?

C’os olhos ao céu erguidos,

Ou postos nos longos mares,

Por ti encho os vagos ares

De mil saudosos gemidos:

Nos rochedos desabridos,

Que em vão bate o rouco mar.

Devorando o meu pesar,

Já que de ouvi-lo te cansas.

Sem premio, sem esperanças

Eu teimo em te idolatrar.

Teimando, se mal não penso,

Hei de abrandar teus rigores;

Porque assim como em amores,

Também em teimas te venço.

Juro pelo sol intenso,

Que a prumo estas rochas queima.

Que mais do que eu ninguém teima.

São as causas desiguais:

Mas por ver quem teima mais,

Juntarei teima com teima.

Se alva fonte murmurando

Gasta em torno os duros seixos,

E vai dos anosos freixos

As raízes escarnando:

Se duras rochas quebrando

Vai c’o tempo o bravo mar:

Se bronzes pôde cortar

Mordente lima teimosa:

Também eu, ninfa formosa,

Teimando te hei de abrandar.