Tupã
Quem, com a plumagem do guará formoso,
tapiza o leito para o sol que nasce,
e a flor de raios faz brilhar, vivace,
da madrugada sobre o azul mimoso?
Quando o sol morre, como o rei das tabas,
tem linda rede de vistosas cores;
mas quem t’o ordena, ó criador das flores,
que presto o raio cintilante apagas?...
Qual magnólia que à manhã descerra,
e o aroma vaza na soidão profunda,
a lua meiga de saudade inunda
meu seio triste que o pesar encerra.
Quem fez o astro que a saudade inspira?
a flor, a mata, a solidão frondosa?
Quem deu ternura à juriti mimosa,
e amor à virgem que de amor suspira?...
Há tantas flores na campina verde!
Há tantos astros lá no azul do Céu!
E como a rosa que o tufão pendeu,
o astro brilhante no bulcão se perde!
Assim a virgem, do guerreiro ausente,
é como a rosa que desmaia e chora;
é como a estrela de nublada aurora...
o véu da morte sobre as faces sente!
A laranjeira se cobriu de flores,
depois, de frutos pelo sol dourados;
novas folhagens vêm vestir os prados,
a selva toda já recende odores.
No verde galho que a roseira estende,
macia paina o beija-flor enreda,
e à flor mimosa, que desbrocha leda,
o brando ninho docemente prende.
Depois, o campo, num lençol de neve
todo s’envolve; desfalece a rosa;
a cachoeira se despenha irosa;
o rio as margens vai transpondo breve.
Desperta o Índio na cabana pobre,
desata a igara da palmeira esguia;
e, mal desponta a madrugada fria,
vai pela água que os outeiros cobre.
De novo canta o sabiá fremente,
cores gentis vêm esplender no Céu;
junto ao guerreiro que feliz volveu,
a Índia virgem já sorri contente.
Ah! quem das flores — virginais tesouros, —
dourados pomos, saborosos, fez?
O dia? o ar? a noite? o sol?... talvez
Tupã, que desce nos seus raios d’ouro!
Tupã, que ordena à primavera alada
esparza flores sobre a verde selva;
Tupã, que manda desdobrar na relva
o branco manto à glacial geada!
Tupã, que pródigo os vergéis enflora,
Tupã, qu’estrelas pelo Céu derrama,
Tupã, que a virgem não conhece e ama,
Tupã, que o índio reverente adora!
Tupã, que eu vejo nos mistérios tantos
que a Natureza nos desvenda aqui!...
Tupã, que escuto nos amenos cantos
que à tarde entoa divinal tupi!