Tupã

By Delminda Silveira de Sousa

Quem, com a plumagem do guará formoso,

tapiza o leito para o sol que nasce,

e a flor de raios faz brilhar, vivace,

da madrugada sobre o azul mimoso?

Quando o sol morre, como o rei das tabas,

tem linda rede de vistosas cores;

mas quem t’o ordena, ó criador das flores,

que presto o raio cintilante apagas?...

Qual magnólia que à manhã descerra,

e o aroma vaza na soidão profunda,

a lua meiga de saudade inunda

meu seio triste que o pesar encerra.

Quem fez o astro que a saudade inspira?

a flor, a mata, a solidão frondosa?

Quem deu ternura à juriti mimosa,

e amor à virgem que de amor suspira?...

Há tantas flores na campina verde!

Há tantos astros lá no azul do Céu!

E como a rosa que o tufão pendeu,

o astro brilhante no bulcão se perde!

Assim a virgem, do guerreiro ausente,

é como a rosa que desmaia e chora;

é como a estrela de nublada aurora...

o véu da morte sobre as faces sente!

A laranjeira se cobriu de flores,

depois, de frutos pelo sol dourados;

novas folhagens vêm vestir os prados,

a selva toda já recende odores.

No verde galho que a roseira estende,

macia paina o beija-flor enreda,

e à flor mimosa, que desbrocha leda,

o brando ninho docemente prende.

Depois, o campo, num lençol de neve

todo s’envolve; desfalece a rosa;

a cachoeira se despenha irosa;

o rio as margens vai transpondo breve.

Desperta o Índio na cabana pobre,

desata a igara da palmeira esguia;

e, mal desponta a madrugada fria,

vai pela água que os outeiros cobre.

De novo canta o sabiá fremente,

cores gentis vêm esplender no Céu;

junto ao guerreiro que feliz volveu,

a Índia virgem já sorri contente.

Ah! quem das flores — virginais tesouros, —

dourados pomos, saborosos, fez?

O dia? o ar? a noite? o sol?... talvez

Tupã, que desce nos seus raios d’ouro!

Tupã, que ordena à primavera alada

esparza flores sobre a verde selva;

Tupã, que manda desdobrar na relva

o branco manto à glacial geada!

Tupã, que pródigo os vergéis enflora,

Tupã, qu’estrelas pelo Céu derrama,

Tupã, que a virgem não conhece e ama,

Tupã, que o índio reverente adora!

Tupã, que eu vejo nos mistérios tantos

que a Natureza nos desvenda aqui!...

Tupã, que escuto nos amenos cantos

que à tarde entoa divinal tupi!