Um pão de trigo

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Nossa Senhora, os meus filhinhos,

Que eram implumes passarinhos

Sem o sol do verão,

Num certo dia tiveram fome.

E eu, em vez de soluçar, e blasfemar,

Contra a sorte, (o que seria em vão)

Lembrei-me então de te chamar.

Não chamei a morte para os meus filhinhos

Porque eu sabia, como ainda sei,

Que nos caminhos

Ínvios do mundo há sempre um dia

Para cada noite,

E um lenitivo para cada açoite.

Não solucei, pois não valia soluçar;

Porque a vida é mesmo assim:

— Para uns, um manto

De alvo cetim;

Para outros, trapo,

Velho farrapo;

Noites sem beira,

Dias sem eira,

Contínuo alquebranto;

Para uns cuidados de felicidade;

Para outros, recanto, ou longos caminhos

Em praia deserta, toda coberta

De atros espinhos, duros espinhos...

Que praia triste!

Para uns existe o loiro trigo;

Farta toalha...

Para outros, palha...

— Coma-a o mendigo.

A vida é assim, dessa maneira:

— Vem uma noiva toda vestida

De flores alvas, de laranjeira.

Que noiva bela!

Abre-se a capela,

Abre-se a ermida

Para recebê-la.

Lindo noivado!

Abre-se um leito, de rendas alvas,

Para recebê-la...

E a noiva pisa cheirosas malvas,

Lírios e rosas e açucenas;

E o seu amado

É um pastor tocador de avenas,

Iluminado.

Noiva tão rica, meiga e louçã,

Só a Estrela da manhã!

E, à mesma hora, parte daqui,

Uma outra noiva, também vestida

De alvas flores de laranjeira.

Gelou-lhe a morte, no entanto, a tez;

Deu-lhe a cor da própria cera,

Depois de angústia de quase um mês...

Gelou-lhe as mãos, gelou-lhe o peito;

Tornou-a branca como o jasmim.

Mas esta noiva dorme num leito

De pano azul, todo fechado...

Ei-lo levado, pelos barrancos,

Aos solavancos.

Abre-se a cova, abre-se a cova

Para recebê-la.

Pálida estrela!

E logo à noite, a lua nova,

Lhe mostrará uma aliança

Que se retrata, feita de prata,

Num fundo negro, sepulcro escuro...

Eis o futuro

Desta outra noiva, também vestida

De alvas flores de laranjeira.

Toda contraste, a nossa vida;

A vida inteira!...

E tudo mais no mundo é assim...

Mas todas as cousas têm um fim.

Findou então,

Nossa Senhora da Conceição,

A triste fome dos meus filhinhos.

Porque o teu nome me veio à mente,

E, de repente, vi que baixaste,

E me escutaste.

Nessa hora, então, um velho amigo,

Lançou-me à mesa um pão de trigo.