Um pão de trigo
Nossa Senhora, os meus filhinhos,
Que eram implumes passarinhos
Sem o sol do verão,
Num certo dia tiveram fome.
E eu, em vez de soluçar, e blasfemar,
Contra a sorte, (o que seria em vão)
Lembrei-me então de te chamar.
Não chamei a morte para os meus filhinhos
Porque eu sabia, como ainda sei,
Que nos caminhos
Ínvios do mundo há sempre um dia
Para cada noite,
E um lenitivo para cada açoite.
Não solucei, pois não valia soluçar;
Porque a vida é mesmo assim:
— Para uns, um manto
De alvo cetim;
Para outros, trapo,
Velho farrapo;
Noites sem beira,
Dias sem eira,
Contínuo alquebranto;
Para uns cuidados de felicidade;
Para outros, recanto, ou longos caminhos
Em praia deserta, toda coberta
De atros espinhos, duros espinhos...
Que praia triste!
Para uns existe o loiro trigo;
Farta toalha...
Para outros, palha...
— Coma-a o mendigo.
A vida é assim, dessa maneira:
— Vem uma noiva toda vestida
De flores alvas, de laranjeira.
Que noiva bela!
Abre-se a capela,
Abre-se a ermida
Para recebê-la.
Lindo noivado!
Abre-se um leito, de rendas alvas,
Para recebê-la...
E a noiva pisa cheirosas malvas,
Lírios e rosas e açucenas;
E o seu amado
É um pastor tocador de avenas,
Iluminado.
Noiva tão rica, meiga e louçã,
Só a Estrela da manhã!
E, à mesma hora, parte daqui,
Uma outra noiva, também vestida
De alvas flores de laranjeira.
Gelou-lhe a morte, no entanto, a tez;
Deu-lhe a cor da própria cera,
Depois de angústia de quase um mês...
Gelou-lhe as mãos, gelou-lhe o peito;
Tornou-a branca como o jasmim.
Mas esta noiva dorme num leito
De pano azul, todo fechado...
Ei-lo levado, pelos barrancos,
Aos solavancos.
Abre-se a cova, abre-se a cova
Para recebê-la.
Pálida estrela!
E logo à noite, a lua nova,
Lhe mostrará uma aliança
Que se retrata, feita de prata,
Num fundo negro, sepulcro escuro...
Eis o futuro
Desta outra noiva, também vestida
De alvas flores de laranjeira.
Toda contraste, a nossa vida;
A vida inteira!...
E tudo mais no mundo é assim...
Mas todas as cousas têm um fim.
Findou então,
Nossa Senhora da Conceição,
A triste fome dos meus filhinhos.
Porque o teu nome me veio à mente,
E, de repente, vi que baixaste,
E me escutaste.
Nessa hora, então, um velho amigo,
Lançou-me à mesa um pão de trigo.