UM SISPIRO DE REPENTE, UM CERTO MUDAR DE COR, SÃO EVIDENTES SINAIS DE QUEM O PEI...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Debalde as penas e os gostos

Disfarçais, loucos amantes.

Se os atentos circunstantes

Tem em vós os olhos postos;

De que servem falsos rostos,

Se o coração os desmente?

Num instante infelizmente

Sai perdido o longo estudo.

Pois vem destuir-vos ludo

Um suspiro de repente,

Nada faz cautela, ou medo

N’alma que deveras ama;

Esta turbulenta chama

Não sabe arder em segredo;

Sobe ao rosto, ou tarde, ou cedo,

Do escondido fogo o ardor;

Basta a declarar a dor.

Vãmente n’alma guardada,

Uma palavra truncada.

Um certo mudar de cor.

Duro amor, que coração

Saberá nunca ocultar-te?

Que vai fazer força ou arte.

Onde as tuas setas vão?

Cegos amantes, em vão

O vivo fogo abafais;

Esses descuidados ais.

Que sem tino ao vento dáveis,

São provas incontestáveis,

São evidentes sinais.

De que serve estar fatiando

Sisudos e comedidos,

Se esses olhos insofridos

Vos estão sempre entregando?

Alçados de quando em quando

Vão dizendo a oculta dor;

Abaixá-los é pior;

Que essas vistas contrafeitas

Dão ás vezes mais suspeitas.

De que o peito oculta amor.