UM SISPIRO DE REPENTE, UM CERTO MUDAR DE COR, SÃO EVIDENTES SINAIS DE QUEM O PEI...
Debalde as penas e os gostos
Disfarçais, loucos amantes.
Se os atentos circunstantes
Tem em vós os olhos postos;
De que servem falsos rostos,
Se o coração os desmente?
Num instante infelizmente
Sai perdido o longo estudo.
Pois vem destuir-vos ludo
Um suspiro de repente,
Nada faz cautela, ou medo
N’alma que deveras ama;
Esta turbulenta chama
Não sabe arder em segredo;
Sobe ao rosto, ou tarde, ou cedo,
Do escondido fogo o ardor;
Basta a declarar a dor.
Vãmente n’alma guardada,
Uma palavra truncada.
Um certo mudar de cor.
Duro amor, que coração
Saberá nunca ocultar-te?
Que vai fazer força ou arte.
Onde as tuas setas vão?
Cegos amantes, em vão
O vivo fogo abafais;
Esses descuidados ais.
Que sem tino ao vento dáveis,
São provas incontestáveis,
São evidentes sinais.
De que serve estar fatiando
Sisudos e comedidos,
Se esses olhos insofridos
Vos estão sempre entregando?
Alçados de quando em quando
Vão dizendo a oculta dor;
Abaixá-los é pior;
Que essas vistas contrafeitas
Dão ás vezes mais suspeitas.
De que o peito oculta amor.