V Desejos

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

Quando, aos trêmulos raios do crepúsculo,

Penetro a sós na solidão das matas,

Ao marulhoso múrmur das cascatas

Que rolam das pedreiras colossais,

A legião fantástica das árvores,

De galhos retorcidos para os ares,

Assim como uns gigantes seculares

Dia e noite afrontando os temporais;

Faz-me lembrar, não sei por que mistério,

Os guerreiros das tribos indianas,

Que tinham nas florestas as cabanas

E nas cabanas a cabocla em flor.

Ah! flor morena dos vergéis da América!

Quem mo dera poder (nem sei se o diga)

Desatar de tua perna a rubra liga,

Nos delírios de um ímpeto de amor!...

Quem me dera embalar-me, nas vigílias,

Na rede onde dormias ao relento,

Tendo por cortinado o firmamento

E por tapete as flores do vergel...

Das estrelas ao vivo alampadário

Ver-te nua e medrosa em meus joelhos,

E nos teus lábios quentes e vermelhos

Em beijos prelibar favos de mel!...

Contigo, à claridão de um luar límpido,

Cortando na barranca uma taquara,

Com ela ir dirigindo a leve igara

Do manso rio à superfície azul...

Cantando juntos a canção dos índios,

As lendas d’essa raça extinta agora,

Lendas que o céu da pátria ouvia outr’ora

Do Prata ao Tocantins...do Norte ao Sul!

E depois, quando a Lua e o silêncio

Por alta noite povoassem tudo,

Ir pisando sutil, trêmulo e mudo,

Para não despertar o piaga ancião...

— Lutando os meus desejos com os zéfiros

Que beijassem-te os fios dos cabelos,

Ébrio de languidez, ébrio de zelos,

Levar-te nos meus braços ao sertão.

No centro mais sombrio e solitário

De uma gruta de galhos entrançados,

Onde outros corações apaixonados

Não batessem de amor, nem uma vez;

De rosas brancas desfolhando as pétalas

No capinzal, eu formaria o leito

Para dormirmos — peito contra peito —

Lábio com lábio, em lânguida mudez!...

Quando, aos trêmulos raios do crepúsculo,

Penetro a sós na solidão das matas,

Ao marulhoso múrmur das cascatas

Que rolam das pedreiras com fragor,

Vêm-me então à lembrança, em vagos êxtases,

Os guerreiros das tribos indianas,

Que tinham nas florestas as cabanas

E nas cabanas a cabocla em flor!...