Velho vento

By João da Cruz e Sousa

Velho vento vagabundo!

No teu rosnar sonolento

Leva ao longe este lamento,

Além do escárnio do mundo.

Tu que erras dos campanários

Nas grandes torres tristonhas

E és o fantasma que sonhas

Pelos bosques solitários.

Tu que vens lá de tão longe

Com o teu bordão das jornadas

Rezando pelas estradas

Sombrias rezas de monge.

Tu que soltas pesadelos

Nos campos e nas florestas

E fazes, por noites mestas,

Arrepiar os cabelos.

Tu que contas velhas lendas

Nas harpas da tempestade,

Viajas na Imensidade,

Caminhas todas as sendas.

Tu que sabes mil segredos,

Mistérios negros, atrozes

E formas as dúbias vozes

Dos soturnos arvoredos.

Que tornas o mar sanhudo,

Implacável, formidando,

As brutas trompas soprando

Sob um céu trevoso e mudo.

Que penetras velhas portas,

Atravessando por frinchas...

E sopras, zargunchas, guinchas

Nas ermas aldeias mortas.

Que ao luar, pelos engenhos,

Nos miseráveis casebres

Espalhas frios e febres

Com teus aspectos ferrenhos.

Que soluças nos zimbórios

Os teus felinos queixumes,

Uivando nos altos cumes

Dos montes verdes e flóreos.

Que te desprendes no espaço

Perdido no estranho rumo

Por entre visões de fumo,

Das estrelas no regaço.

Que de Réquiens e surdinas

E de hieróglifos secretos

Enches os lagos quietos

Revestidos de neblinas.

Que ruges, brames, trovejas

Ó velho vândalo amargo,

No sonâmbulo letargo

De um mocho rondando igrejas.

Que falas também baixinho

Lá da origem do mistério,

Trazendo o augúrio sidéreo

E certa voz de carinho...

Que nas ruas mais escusa,

Por tardes de nuvens feias,

Como um ébrio cambaleias

Rosnando pragas confusas.

Que és o boêmio maldito,

O renegado boêmio,

Em tudo o turvo irmão gêmeo

Do sonhador Infinito.

Que és como louco das praças

Nos seus gritos delirantes

Clamando a pulmões possantes

Todo o Inferno das desgraças.

Que lembras dragões convulsos,

Bufantes, aéreos, soltos,

Noctambulando revoltos

Mordendo as caudas e os pulsos.

Ó velho vento saudoso,

Velho vento compassivo,

Ó ser vulcânico e vivo,

Taciturno e tormentoso!

Alma de ânsias e de brados,

Consolador companheiro

Sinistro deus forasteiro

D’espaços ilimitados!

Tu que andas, além, perdido,

Tateando na esfera imensa

Como um cego de nascença

Nos desertos esquecido...

Que gozas toda a paragem,

Toda a região mais diversa,

Levando sempre dispersa

A tua queixa selvagem.

Que no trágico abandono,

No tédio das grandes horas

Desoladamente choras,

Sem fadigas e sem sono.

Que lembras nos teus clamores,

Nas fúrias negras, dantescas,

Torturas medievalescas

Dos ímpios inquisidores.

Que és sempre a ronda das casas,

A gemente sentinela

Que tudo desgrenha e gela

Com o torvo rumor das asas.

Que pareces hordas e hordas

De hirsutos, intonsos bardos

Vibrando cânticos tardos

Por liras de cem mil cordas.

Ó vento languido e vago,

Ó fantasista das brumas,

Sopro equóreo das espumas,

Ó dá-me o teu grande afago!

Que a tua sombra me envolva

Que o teu vulto me console

E o meu Sentimento role

E nos astros se dissolva...

Que eu me liberte das ânsias

De ansiedades me liberte,

Pairando no espasmo inerte

Das mais longínquas distâncias.

Eu quero perder-me a fundo

No teu segredo nevoento,

Ó velho e velado vento,

Velho vento vagabundo!