Vem!...

By Delminda Silveira de Sousa

Quando a campina se vestir de flores,

da Primavera na estação formosa,

quando no prado desatar-se o rosa,

e a terna rola suspirar de amores,

vem tu que eu amo, vem doirar meu sonho

quando a campina se vestir de flores.

Esmaltam os lírios o tapiz da veiga,

recende aroma o verdor da grama;

revive e canta todo o ser que ama,

desperta e aurora mais risonha e meiga,

no doce alento da estação mimosa

esmaltam lírios o tapiz da veiga.

Na quadra amena da estação florida

tem mais perfumes a cecém tão pura;

também meu peito, qual cecém n’alvura,

tem mais carinhos, mais amor, mais vida:

tem mais encantos nosso afeto unido

na quadra amena da estação florida!

Vem, que eu já ouço festival gorjeio;

a selva toda já rebenta em flores;

da Primavera co’os gentis amores,

juntos voemos ventura ao seio...

dentre as boninas qu’engrinaldam a selva,

vem, que eu já ouço festival gorjeio!

Vê como anseia o beija-flor dourado

entre os perfumes do vergel em flor!

Como a papoula de carmínea cor

abre formosa no matiz do prado!

Ante a brancura dos jasmins cheirosos

vê como anseia o beija-flor dourado!

Ao sol de Abril, sob um docel de flores,

a laranjeira nos of’rece abrigo;

oh! quão ditosa não serei contigo,

tendo na vida o meu sonhar de amores!...

Que doces cantos t’erguerá minh’alma,

ao sol de Abril, sob um docel de flores!...

Oh! dá-me em troca deste amor infindo

afeto puro qual das rolas fidas;

não vês, constantes, como vivem unidas

do bosque ameno no reino lindo?...

Toda a ternura de teu peito ardente,

oh! dá-me em troca deste amor infindo!...

Vem, tu que eu amo, vem dourar meu sonho,

que a primavera já raiou formosa;

na rude selva que perfuma a rosa,

há luz, há cantos desde o alvor risonho.

O sol desmaia no poente agora...

— vem, tu que eu amo, vem dourar meu sonho!