Vem!...
Quando a campina se vestir de flores,
da Primavera na estação formosa,
quando no prado desatar-se o rosa,
e a terna rola suspirar de amores,
vem tu que eu amo, vem doirar meu sonho
quando a campina se vestir de flores.
Esmaltam os lírios o tapiz da veiga,
recende aroma o verdor da grama;
revive e canta todo o ser que ama,
desperta e aurora mais risonha e meiga,
no doce alento da estação mimosa
esmaltam lírios o tapiz da veiga.
Na quadra amena da estação florida
tem mais perfumes a cecém tão pura;
também meu peito, qual cecém n’alvura,
tem mais carinhos, mais amor, mais vida:
tem mais encantos nosso afeto unido
na quadra amena da estação florida!
Vem, que eu já ouço festival gorjeio;
a selva toda já rebenta em flores;
da Primavera co’os gentis amores,
juntos voemos ventura ao seio...
dentre as boninas qu’engrinaldam a selva,
vem, que eu já ouço festival gorjeio!
Vê como anseia o beija-flor dourado
entre os perfumes do vergel em flor!
Como a papoula de carmínea cor
abre formosa no matiz do prado!
Ante a brancura dos jasmins cheirosos
vê como anseia o beija-flor dourado!
Ao sol de Abril, sob um docel de flores,
a laranjeira nos of’rece abrigo;
oh! quão ditosa não serei contigo,
tendo na vida o meu sonhar de amores!...
Que doces cantos t’erguerá minh’alma,
ao sol de Abril, sob um docel de flores!...
Oh! dá-me em troca deste amor infindo
afeto puro qual das rolas fidas;
não vês, constantes, como vivem unidas
do bosque ameno no reino lindo?...
Toda a ternura de teu peito ardente,
oh! dá-me em troca deste amor infindo!...
Vem, tu que eu amo, vem dourar meu sonho,
que a primavera já raiou formosa;
na rude selva que perfuma a rosa,
há luz, há cantos desde o alvor risonho.
O sol desmaia no poente agora...
— vem, tu que eu amo, vem dourar meu sonho!