Verão

By João da Cruz e Sousa

Pelos estios enormes,

Nas caladas morbidezas,

Nas atmosferas de brasas,

Os insetos multiformes

Ardem, com flamas acesas,

Voam com fogo nas asas.

Entre os tórridos aspectos,

Nos inflamados ardores,

Nas tropicais perspectivas

Zumbem quentes os insetos

D’apopléticos calores,

Como iriais centelhas vivas.

Na labareda sangrenta

Do sol profundo e nervoso,

De calidíssima origem,

A chusma d’insetos, lenta,

Zumbe, ferve no ar pomposo,

Numa elétrica vertigem.

Ferve a chusma undiflavada

Na sangrenta labareda,

Em goivos no ardente espaço;

E na forte luz vibrada

As suas asas de seda

São rijas como asas d’aço.

Que só o equilíbrio e a força

Da natureza impulsora

Pode fazer — os radiarem

Sem que uma asa se contorça,

Sem na chama geradora

As antenas estalarem!